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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Nota 100!

100% carneiro
100% natural
100% feito à mão - fiado em roca de pedal e tricotado em casa.

Toda vez que termino de preparar um fio artesanal, demoro o triplo do tempo para decidir em que receita utilizá-lo; e toda vez chego à mesma conclusão: menos é mais! Acabo escolhendo uma peça muito simples - justamente para valorizar a beleza do fio. Dessa vez não foi diferente:




Fiz um cachecol circular duplo - conhecidos como "Infinity Scarves". Todo em ponto meia e tricô. Simples assim. Mas graças ao fio a peça ficou super macia e deliciosa de usar, quentinha de verdade. Agora há pouco fui atrás de casa fotografá-la e já deu vontade de sair usando, já que a temperatura despencou aqui no Sul de Minas de ontem para hoje.

O fio é um two-ply: dois singles retorcidos juntos; a espessura ficou entre 3 e 4, e essa irregularidade é o charme dos fios artesanais. A fibra original - lã de carneiro das ilhas Falkland - era essa coisa linda:


E escrevi mais sobre ela aqui e aqui.

Por hoje é só. Até a próxima!

domingo, 3 de março de 2013

Coquetel de Fibras

"Ele voltou... o boêmio voltou novameeeeeente!" Quando eu era menina e ouvia o Nelson Gonçalves cantando isso eu sempre achava o verso assim, meio.... redundante. Voltou novamente? Hoje vejo que isso é possível, sim: um mês atrás eu escrevi uma postagem voltando de férias, mas aquilo foi delírio meu: cá estou eu voltando de férias... novamente. A gente tenta, mas a verdade é que enquanto as crianças não voltam às aulas e o carnaval não passa, não dá para retomar o ritmo de vida normal. Tentei, falhei.

Em minha defesa posso afirmar que tirei férias de escrever no blog, mas não de mexer com as fibras. Como evidência vou mostrar o fio BFL pronto - aquele verde-samambaia que estava fiando na última postagem:

1. Fio pronto no niddy-noddy - pouco mais de 300 metros;
2-3. Retirada do niddy-noddy, a meada ainda apresenta excesso de torção;
4. Após a lavagem, o fio relaxa e a torção normaliza;
5. Nas ilustrações românticas de antigamente havia sempre uma boa alma segurando a 
meada enquanto a tricoteira preparava a bola... eu uso as costas da cadeira, mesmo;
6. Bola de fio pronta para usar!

Como eu havia previsto, o fio ficou muito fofinho e se comportou bem nessa primeira amostra:


O complicado de se fabricar fio artesanalmente é que ele acaba virando nosso bebezinho, e é bem difícil decidir em que peça utilizá-lo! Enquanto aguardo inspiração, vou mostrar outros fios que andei usando. Trata-se de fios industrializados, com diferentes combinações de fibras. Cada combinação tem um resultado - às vezes feliz, outras vezes nem tanto. Nos últimos meses tricotei as seguintes peças testando esses fios:


Fio: Ice Yarns* Viscose Merino 
Combinação de 50% merino (lã natural) e 50% viscose (sintética)
Aprovada porque: A viscose tornou a lã mais fresquinha e apropriada para meia-estação, e deu um drapeado bonito e gostoso à peça. O fio distorce um pouquinho, mas nada que desanime, e o resultado compensa.


Fio: Patons** Serenity 
Combinação de 50% algodão e 50% viscose de bambu
Reprovada porque: Tanto o algodão quanto a viscose de bambu são mais pesados e não têm elasticidade; a peça ficou bonita e gostosa, fresquinha... mas cada vez que olho para ela parece que está maior! No corpo, ela não pára no lugar, quase escorrega ombro abaixo...Além disso, a torção fica desfazendo (não tem a lã para segurar a torção) e a gente sem querer enfia a agulha no meio das fibras - muito chato de trabalhar. 



Fio: Brown Sheep*** Cotton fine 
Combinação de 80% algodão e 20% lã 
A-pro-va-dís-si-ma porque: Apesar do predomínio do algodão, que tem zero elasticidade, a pequena quantidade de lã presente deu "outra mão" ao fio: a peça ficou leve e fresca e não cresce involuntariamente como se tivesse vida própria.  A definição do ponto é excelente, e o fio é muito agradável de trabalhar.



Fio: Ice Yarns Pure Alpaca
100% alpaca
Essa fibra é maravilhosa... mas empregada pura, não é apropriada para qualquer trabalho, não: o fio fica um pouco pesado e a elasticidade também fica comprometida. A peça acima cresceu muito na hora de blocar. E algo me diz que vai crescer mais com o uso...sendo um xale, tudo bem; mas e se se fosse um suéter? Nesse caso, eu certamente ia preferir uma combinação de alpaca com lã. Já escrevi outras postagens sobre a alpaca - para localizar utilize a ferramenta de busca do blog.


Fio: Ice Yarns Woolsilk Tweed
Combinação de 40% rayon (sintético), 30% seda e 30% lã
O fio me pareceu um pouco rústico a princípio... estava guardado aqui em casa há um tempão, mas não tinha simpatizado com ele nas primeiras tentativas de tricotar um amostra. O fato é que ele é rústico, sim, e não se presta a trabalhos muito elaborados, com tranças , pontos em relevo, etc. No final, revelou-se perfeito para essa peça super básica, toda em ponto meia: sua textura mesclada foi valorizada e, para minha surpresa, ele foi ficando mais gostoso à medida em que eu tricotava! 

*Vocês devem ter reparado que vários dos fios acima são da Ice Yarns; não estou fazendo propaganda; é que esses fios, apesar de importados, são bem acessíveis. Andei sondando e a informação que tive é que lá na Turquia, onde fica a empresa, o uso pricipal dos fios é a fabricação de tapetes. O mercado de tricô e crochê não é lá essas coisas, e eles então vendem para o exterior. Tenho comprado muito deles - o atendimento é ótimo, os pacotes chegam rápido e a maioria dos fios é bem legal. Já tive algumas decepções e a paleta de cores não é muito variada; mas, ainda assim, compensam.

**O Patons é Australiano e alguns de seus fios estão à venda no Bazar Horizonte. O fabricante é bom - a combinação de fibras que citei aqui é que não funcionou - pelo menos não para mim.

***O Brown Sheep é super renomado e caro para nosso bolso; o fio que mencionei acima foi comprado em uma promoção do eBay - cinco novelos por um precinho bacana; segundo o vendedor, a produto era de segunda linha mas "está em condições de uso". Não vi nada de segunda linha - o fio estava perfeito. O controle de qualidade lá fora é que é muito rigoroso.

Enquanto isso, aqui no Brasil, é tempo de novos lançamentos para o inverno. E, mais uma vez, as primeiras "novidades" não são nada promissoras:


Como nos anos anteriores: pompons, frufrus, bolotas e alguns basiquinhos repetitivos. Tudo em poliéster, poliamida, acrílico... ou seja: totalmente sintéticos. Na boa: eu penso que...


Então, em homenagem a nossos fabricantes, fiz essa brincadeirinha com aquelas carinhas que andam fazendo sucesso na internet: 


Pensando bem, brincadeirinha uma ova: é sério, viu, senhores fabricantes? Acordem!

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O Milagre da Transformação

Fala a verdade: dá para acreditar que isto...


...era isto?


Continuo aqui com minhas experiências em processamento de fibras, e é muito interessante ir aprendendo e vendo as modificações que a fibra sofre - em minhas mãos, diante de meus olhos! Por que será que gosto tanto desse processo? Talvez porque nunca freqüentei o jardim de infância, nunca fiz aqueles projetos que causam uma tremenda sujeira e deixam as professoras loucas com uma dúzia de crianças de mãozinhas sujas? Deve ser.

Essa lã que estou mostrando ainda é aquela do Seu Arlindo. Aquela. Já peguei e larguei dela várias vezes, e recentemente peguei de novo por conta de ter, finalmente, comprado um par de cardas para me ajudar no processamento.



Até agora só descobri um fabricante no Brasil, elas custam absurdamente caro e são objetos simples e rústicos. O preço alto é por conta da parte com os dentes de aço - quase ninguém fabrica isso. Não vou contar quanto paguei aqui - dá até vergonha. Mas digo: custou apenas 100 reais menos do que minha roca, que é um objeto de madeira nobre, bem torneado, cheio de detalhes.

Mas enfim, tomei coragem e comprei meu parzinho no site da Selaria Dias; chegou rápido e na mão elas são até mais rústicas e feínhas do que nas fotos. Lixei e dei um trato nelas com cera de carnaúba - nada como uma maquiagem, né?

O grande problema, no entanto, foi este:


À direita está o meu merino branquíssimo, que já compro penteado, lá do Rio Grande do Sul; à esquerda está a mesma fibra depois de cardada. Ficou encardida, né? Pois é: os dentes das cardas vieram oxidados - uma coisa sutil, quase imperceptível. Meu merino foi quem denunciou!


Fiquei indignada a princípio e quis devolver o produto. A loja não criou qualquer dificuldade e declarou-se pronta a cancelar a comprar e restituir meu dinheiro. Mas aí conversei daqui, dali, perguntei, pesquisei... afinal, ainda não descobri onde comprar outro par. Acabei ficando com elas; limpei os traços de ferrugem com vinagre e uma pasta de bicarbonato de sódio e água. Saiu tudo. Mesmo assim, não deixo de lamentar que no Brasil a gente ainda tenha tão poucas opções, e que como consumidores ainda sejamos tratados com esse descuido: pelo que entendi, quase não há demanda para esse produto, ainda, e depois de fabricado ele fica "dormindo" mais tempo que a Bela Adormecida na prateleira. Por isso a oxidação. Mas e eu com isso? Paguei caro e acho que merecia ter recebido um produto pronto para o uso.

Problema resolvido, agora as cardas estão quebrando um galhão. Em minhas tentativas anteriores de fiar a lã do Seu Arlindo, eu tinha de fazer muita força para desfiar as fibras na quantidade certa. Agora depois de cardá-la, fica muuuuuuito mais fácil e até gostoso. Compare:


1. Esse é um punhado da lã antes de lavar...
2....e já lavado, pendurado para secar.
3. A lã lavada ainda tem vestígios de matéria vegetal.
4. A carda abre as fibras e remove quaisquer vestígios.
5. Rolinho pronto para fiar.

E agora é só diversão:


Esses dias vou visitar o Seu Arlindo e levar um rolinho da lã já fiada para ele ver. Quando fui buscar o velo, em janeiro, ele me olhou um tanto surpreso, provavelmente achando exquisito eu querer levar para casa aquela "coisa" - a lã que estava jogada em um galão e ele ia incinerar. Nem eu mesma tinha tanta fé naquela fibra. Mas tinha de experimentar - fazer o quê? Ossos do ofício. Em tempo: milagre algum tornaria essa fibra suave como o merino; cada lã tem seu propósito. Ela será usada para projetos utilitários - nunca um cachecol!

E nos dias 26 de outubro a 7 de novembro eu e o pessoal da ACAJAL vamos estar com exposição montada aqui em Pouso Alegre, na Galeria Artigas (ao lado do Teatro Municipal). A mostra é tradicionalmente de patchwork, mas vamos apresentar também o projeto da lã de carneiro. Quem nos visitar vai poder "ver com as mãos" e experimentar fiar no fuso e na roca - além de conhecer lindas peças feltradas. Não percam!


quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Era assim...


Top penteado - 50% merino, 50% tencel. O nome da cor é Hibiscus.


... e ficou assim:

Dois fios torcidos juntos (2-ply). Rendeu cerca de 210 metros.


E algumas fotos do processo:

Fiei na roca de pedal...

...depois mergulhei na bacia com água e um pouquinho de amaciante, espremi o excesso e esperei (impacientemente) secar.

E hoje cedo quando fui lá atrás de casa (onde tem luz boa) fotografar o comecinho do tricô, não resisti e tirei essas fotos:

Os gerânios e a bouganvillea estão felizes que só vendo! (participação especial do bumbum da Kimee, no cantinho à direita).

Minha orquídea cheia de botões.

Agora é oficial: a primavera está aí!

Até breve!

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Da Água para o Vinho

...ou seria do vinho para a água?

O fato é que a última fibra que andei fiando veio do velo de carneiro que ganhei de um criador aqui da região - já contei esse "causo" aqui. E aqui mostrei a primeira tentativa de fiar essa lã.

Não consegui avançar muito - a fibra é rústica mesmo, difícil de distender para aplicar a torção. Mas saiu esse rolinho como amostra:


Made in Pouso Alegre!

Quem ia acreditar que esse rolinho veio do pacotão encardido que mostrei meses atrás?



Nisso chega pelo correio aquela coisa linda chamada Hibiscus que mostrei na última postagem, e quem ia resistir, né? Pausa no velo do Seu Arlindo, bobina nova na roca, e vamos a fiar a misturinha de merino e tencel:


É simplesmente o extremo oposto: nunca fiei uma fibra tão fácil de distender! A dificuldade aqui é outra: com o velo do Seu Arlindo eu tinha de fazer força para distender a fibra; com esse aqui a mão tem de ser muito leve, para não romper a fibra ao invés de distendê-la. Isso por causa da porcentagem de tencel acrescentada à lã; o tencel é muito sedoso, bem escorregadio e deixa o tecido mais maleável. Como é sintético, o tecido também fica mais forte. Já escrevi aqui que não sou a favor de fibras sintéticas, mas quis testar essa mistura. 

O resultado está ficando lindo - um fio delicado, matizado em tons de rosa, salmão e uns toquezinhos alaranjados (na foto ele parece mais rosa do que é). É interessante fiar a lã que já compramos tingida. As variações de cor são óbvias antes da fiação, mas os tons se mesclam no processo, e criam uma cor indefinível. O resultado sempre surpreende. Essa está indo rapidinho, então logo poderei mostrar mais. 

Até a próxima!

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Entre o medo e a curiosidade

O blog da Fazenda Caixa D'Água publicou uma postagem legal citando o vídeo "E a velha a fiar"- segundo eles uma preciosidade de 1964, um dos primeiros videoclipes do Brasil e do mundo. Digo "segundo eles" porque não assisti: quando cliquei no link que eles compartilharam no facebook, a cena inicial do clipe mostrava uma baita aranha! Uma aranha muito, muito grande. Quem me conhece sabe que tenho fobia de aranhas - como já deixei transparecer em uma de minhas primeiras postagens - essa aqui.

Quando falo em fobia de aranhas não quero dizer medo das bichinhas ao vivo: não posso nem ver fotos, cenas, desenhos, nada que me lembre delas. Recentemente quase surtei assistindo ao novo filme do Homem-Aranha com meu filho: o Peter faz uma busca na internet e aparece um monte de fotos horripilantes!

Mas as aranhas têm, na verdade, um simbolismo interessante no mundo da fiação e da tecelagem. Aracne era uma fiandeira e tecelã que desafiou a deusa Atena e foi por ela transformada em aranha. A história você lê aqui.

E, se você acha que não vai se abalar com uma aranha fotogênica que é a estrela do vídeo em questão, assista e depois me conte: http://caixadagua.com/blog/?p=79

Eu passo!

sábado, 4 de agosto de 2012

Descobertas

Tenho andado ocupada nas pesquisas. Em inglês, "pesquisar" é research. Como "search" é procurar, entende-se que "re-search" é procurar, e procurar novamente! E é isso que tenho feito...

 Provar que a utlização da lã de carneiro já foi corriqueira por aqui: eis a maior preocupação do projeto da ACAJAL que busca resgatar e documentar essa prática na região. Assim sendo, continuo buscando contatos, conversando com pessoas e juntando informações. Já descobri histórias em várias cidades aqui no Sul de Minas - Borda da Mata, Santa Rita do Sapucaí, Bueno Brandão, Ouro Fino... só não contava com essa: assistindo a um vídeo da D. Zélia Scholz, renomada fiandeira e tecelã que ensina em Curitiba, PR, ela começa a falar da tradição do uso da lã de ovelha em sua família e de sua infância... em Minas Gerais!

O vídeo é este:


Pois é... eu jurava que D. Zélia era do sul, mas essa artista talentosa é daqui. Ela é uma das pessoas que lutam para divulgar e manter a tradição da fiação artesanal no Brasil. Para saber mais, visite seu blog. Foi lá que eu li essa interessante lenda, que eu não conhecia.

Já contei aqui que ganho meu dia quando faço uma descoberta dessas? Hoje ganhei o mês!

Bom fim de semana!

domingo, 17 de junho de 2012

Lã boa e lã ruim

Eu contei, uns dias atrás, que finalmente estou fiando a lã que ganhei do Seu Arlindo. Essa lã é especial porque foi o primeiro velo que caiu em minhas mãos. E o primeiro velo a gente nunca esquece!


Eu andava pesquisando criadores de carneiros na região. Descobri vários, mas nenhum voltado para a produção de lã. Em algumas propriedades há carneiros lanados, mas não existe o cuidado necessário para a obtenção de uma fibra de qualidade - o foco é a produção de carne. Uma das indicações que recebi me levou à região da Pousada Recanto do Teimoso, onde finalmente eu os vi: branquinhos, peludinhos, os carneirinhos!


Fui atrás e descobri o proprietário, que gentilmente me encaminhou para o administrador - o Seu Arlindo. Sobre esse encontro eu já escrevi aqui.

A maior parte dessa lã que ganhei ainda está em seu estado bruto, no mesmo saco em que veio do sítio; lavei uma pequena porção mas depois desanimei: a lã é rústica demais, muitas pontinhas são impossíveis de pentear e a quantidade de matéria vegetal é enorme. 

Pentear a lã é um capítulo à parte: é difícil conseguir o equipamento apropriado, e eu ainda estou usando um parzinho de rasqueadeiras de pentear poodles. Pesquisando eu até descobri onde comprar um par de cardas de verdade, mas o preço é surreal: acima de duzentos reais. Disse o Guaracy, do Sítio Duas Cachoeiras, que outro dia mesmo uma carda custava dezenove reais. Com o aumento do interesse o preço galopou dessa forma. Mas são objetos super simples - vejam só:


Por conta disso é que continuo vasculhando lojas de artigos veterinários. Espero pelo menos conseguir rasqueadeiras maiores! E vou improvisando enquanto isso...

Mas enfim, já tinha desistido dessa lã. Durante minha visita ao Sítio Duas Cachoeiras, no entanto, vi a Cecília fiando uma lã tão rústica quanto a minha (minha, não, dos carneirinhos do Seu Arlindo). Não é uma lã apropriada para trabalhos delicados, como o tricô. Mas a Cecília fia e tece uns tapetinhos bem legais. Voltei mais animadinha, pus as luvas e tentei de novo; a lã tem de ser lavada porque a sujeira é muito grande; depois, na hora de pentear, cai muita matéria vegetal; uma segunda lavadinha a deixa bem mais limpa e aí tem de pentear mais um pouco, para afofá-la; depois, finalmente, é hora de fiar.

Mas é bem chatinho: ela não desfia bem como a lã de boa qualidade, e o fio fica bem irregular - grosso-fino-grosso-fino... Mas, como tenho aprendido, não existe lã boa ou lã ruim: cada tipo se presta a um propósito. Espero, em breve, poder mostrar aqui tapetinhos feitos com a lã que estou fiando. Por enquanto, ficam as fotos da lã antes e depois de fiada:

O velo não era totalmente branquinho: as cores naturais se mesclam.

A lã fiada tem trechos mais claros e outros mais escuros: isso deve dar um aspecto interessante ao trabalho pronto.


Depois de fiar, pretendo torcer dois fios juntos para tricotar com agulhas grandes - bem rústico. Vamos ver no que isso vai dar.

Até a próxima!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Tirando do Baú

Semaninha corrida, sô!

O que? Hoje ainda é segunda-feira? Ok, falo da semana passada, então. Essa promete ser mais corrida ainda - com feriadão, aniversário do filho, etc.

Tenho fiado pouco e tricotado muito - inclusive um cachecol da Hogwarts que meu filho vai usar em sua festinha de 8 anos à Harry Potter:



Nessa época de frio intenso aqui  no Sul de Minas dá vontade de tricotar mais e os pedidos dos filhos e amigos surgem de montão. Mesmo assim, nas brechinhas de tempo vou fiando o que posso, e aos poucos vai saindo alguma coisa. Hoje vou mostrar o resultado de um projeto de vários meses atrás. Lembram quando mostrei o merino colorido que comprei da La Rocca? Esse aqui, ó:


O branquinho ainda está por aqui, mas terminei de fiar todo o bege e o marrom, e hoje experimentei os fios pela primeira vez; como as quantidades de cada cor são reduzidas, estou pensando em um projeto bicolor - por isso fiz a amostrinha assim:

Padrões coloridos pedem um fio com maior definição do que meu humilde merinozinho fiado em casa, de torção dupla (2-ply). Mesmo assim achei que a amostra ficou simpática, e o fio até que é razoavelmente gostoso; esse é um merino bem mais rústico do que o branquinho, e mais apropriado para uma peça que não seja usada diretamente sobre a pele. Estou namorando este poncho - espero que o fio seja suficiente para uma versão mais curtinha:


Essa peça é do Custom Knits Accessories, novo livro da Wendy Bernard - cheia das boas idéias!

E vocês lembram do velo de carneiro que ganhei em janeiro e fui buscar na roça? Aquele que veio para casa "perfumadinho", no porta-malas do carro - um pacotão enorme como um "presunto"?

Falei dele nessa postagem, mas depois disso não dei continuidade ao assunto; é uma história longa  envolvendo teias de aranha, extrume e um certo desânimo, mas parece que o final vai ser feliz: estou fiando o danado! Na próxima postagem eu conto.

Inté!

terça-feira, 15 de maio de 2012

Oops! Muita calma nessa hora...

Há mais complexidade no mundo das fibras do que supõe nossa vã cestinha de tricô! Duas postagens recentes geraram dúvidas, e algumas pessoas me escreveram para esclarecê-las (a propósito, não sei o que está acontecendo com o blogger: muitas pessoas têm me enviado e-mail dizendo que não conseguem postar comentários aqui).

Vamos lá:

Na última postagem falei sobre o Mohair, que vem da cabra angorá; e aí perguntaram: Mas angorá não é um coelho? Sim, também; e há ainda o gato angorá. Os animaizinhos descritos como angorá têm o pêlo beeeeeeem  longo. Então, para esclarecer:

- o coelho angorá fornece a fibra comercialmente descrita como angorá; ou seja, se o rótulo de seu fio disser que ele contém angorá, a fibra vem do coelhinho, que já mostrei aqui.

- a cabra angorá fornece a fibra comercialmente conhecida como mohair;

- a cabra cashmere fornece a fibra comercialmente conhecida como cashmere.

Como podemos ver, nem só de carneirinhos vive a fiação artesanal. Também já falei sobre a alpaca em outra ocasião.

Outra postagem que causou confusão foi esta, em que falei de um fio brasileiro classificado como worsted. Essa palavra normalmente confunde porque tem dois significados completamente diferentes:

- os fios podem ser classificados como woolen ou worsted; nesse caso, a classificação refere-se à maneira como as fibras foram preparadas para a fiação: cardadas desordenadamente em todas as direções (woolen) ou penteadinhas, todas na mesma direção (worsted); já expliquei a diferença aqui.


Foto 1: o método worsted gera um fio mais denso, compacto e resistente;
Foto 2: o método woolen resulta em fio mais leve e aerado, porém com menos definição e resistência.

- Maaaaaas... worsted também é uma das classificações por espessura, e descreve um fio médio. As nomenclaturas variam da mais fininha (lace weight) à bem grossona (super bulky). Essa tabela descreve todas as categorias.

Bacana mesmo vai ser o dia em que tivermos essas classificações aqui mesmo, no Brasil. E uma terminologia padronizada aplicada aos fios, às receitas... Também ando atrapalhada com os termos da fiação artesanal: quem leu as postagens sobre esse tema deve ter percebido que utilizo os termos em inglês, grifados: single, plying, drafting... Tenho pesquisado e não encontrei ainda termos em português para muitas das diferentes etapas do trabalho. Mas eles devem existir, pois já se fiou muito no Brasil.

No momento estou buscando contatos com associações de fiandeiras que descobri em Goiás e Alagoas, com o objetivo de aprender os termos que elas usam. E, aqui no Sul de Minas, tenho conversado com pessoas que cresceram vendo alguém fiar - mãe, avó, tia - na esperança de aprender um pouco sobre essa terminologia perdida. Esse vocabulário precisa ser resgatado e documentado rápido, antes que mais uma geração se vá e não sobre ninguém para contar a respeito. Aceito ajuda: se alguém puder sugerir fontes de pesquisa, contatos, etc. será uma grande contribuição!

terça-feira, 8 de maio de 2012

Nosso canto!

Ando muito entretida nos últimos dias com o ótimo livro da Adélia Borges, "Design + Artesanato - O caminho Brasileiro". Tenho muito o que falar dele aqui, mas por enquanto vou contar só que ontem à noite li um trecho mencionando a existência de associações de fiandeiras - mulheres que fiam - no Brasil. Toca a pesquisar na internet, e de repente descubro o quê? Que existe o Canto das Fiandeiras.


Eu devo ser muito sentimental. Comprei minha roca em novembro passado, sem nunca ter visto uma e sem jamais ter visto ninguém fiar. Achava que estava solitária nisso e no sábado conheci a Cecília, do Sítio Duas Cachoeiras, bem pertinho daqui, que também fia (mostrei na postagem anterior). E agora surge esse canto. Que gostoso, né, Cecília?

E essa é a letra:

A roda que eu fio nela, ô senhora
É só eu que ponho a mão, ô senhora

Ou então minha cunhada, ô senhora
que é muié do meu irmão, ô senhora

As panela lá de dentro, ô senhora
Tá fervendo numa lida, ô senhora

Uma de boca pra baixo, ô senhora
Outra de fundo pra riba, ô senhora

A roda qu'eu fio nela, ô senhora
Sabe lê, sabe escrevê, ô senhora

Só não sabeme dizer, ô senhora
Quanto custa um bem-querer, ô senhora

Fia, fia minha roda ô senhora
Pra acabar com esse algodão, ô senhora

Pra fazer muita roupinha ô senhora
Pra dona da fiação ô  senhora . 


Dia bom começa assim.

Inté!

sábado, 14 de abril de 2012

Prestando contas - Parte 2

He he he, mudei de tática: para não escrever uma postagem enorme, como andei fazendo, quebrei os assuntos em mais de uma postagem hoje, já que está dando tempo. Trapaça, né?

Mas estou doida para mostrar o que fiz com a misturinha de merino + seda que mencionei algumas postagens atrás:


É muito interessante acompanhar todo o processo, da fibra à peça final. Nos EUA há sempre uma demonstração assim nos festivais de fibras - são chamadas de Sheep to Shawl, ou "Do carneiro ao Xale": com o público assistindo, eles tosquiam o carneiro, lavam e processam a lã e tricotam um xale. (Este vídeo curtinho mostra uma competição entre equipes, mas o xale, nesse exemplo, é feito em tear, e não tricotado).

Bem, eu não pude começar lá do carneiro ainda, e também não processei a lã - comprei a fibra já penteada; mas fiei e tricotei o xale:

Enquanto se tricota, o ponto rendado não aparece muito. 

Na hora de blocar, a surpresa: a renda aparece totalmente, e o xale cresce!

Depois de blocado, o xale fica leve e aerado, e drapeia bem.


Confesso que enrolei muito tempo, fugindo de um projeto como esse; mas não é tão difícil - só requer bastante atenção para seguir o gráfico. Essa receita é gratuita no Ravelry, e eu escrevi à designer, Pam Allen, pedindo autorização para publicá-la aqui, em português. Estou aguardando a resposta e decifrando aquelas siglazinhas todas usadas nas receitas. Breve.

Acaba de começar a chover aqui. Vai esfriar. Tempinho gostoso para mexer com lã!

Bom fim de semana!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Das dificuldades de se manter um blog...

Há duas semanas não escrevo uma postagem, mas vou garantir: não é por falta de assunto. Tenho três ou quatro postagens prontinhas na cabeça, mas o tempo escasso e outras complicações foram aparecendo...

...tipo esta aqui:


Esta é a Tailee, e hoje de manhã cheguei à conclusão de que ela tem ciúmes do computador. Só pode ser isso.

Mas o motivo real que me manteve afastada do blog durante essas duas semanas foi um serviço extra que peguei: a tradução de um texto...não, nada sobre fibras, tricô ou carneirinhos: era jurídico, mesmo. Foi um servicinho pesado e tedioso que durou vários dias e, depois que entreguei, fiquei por algum tempo sem querer sequer ver o teclado do computador. Meus dedos não obedeciam, mesmo.

Mas aí, como estou em fase de querer tirar lições de tudo, o tal trabalho me provocou muitas reflexões. O texto era quase todo especificações para o fornecimento de equipamento industrial pesado. Peixe grande. E isso me fez pensar na complexidade das engrenagens que movem esse mundo em que vivemos: nós desfrutamos dele, e consumimos o que é oferecido a nós, mas nem de longe sonhamos com a quantidade de pessoas que trabalham para que possamos ter acesso a uma certa facilidade; ou a quantidade de dinheiro que gira em torno disso; ou que talvez um alto executivo da empresa que fabrica os tais equipamentos saia de sua casa toda manhã, rale o dia todo, e esteja infeliz, cheio desse trabalho. Mas ele faz parte de uma engrenagem que não pode parar. É um mundão, e é preciso muita gente para fazê-lo girar.

De minha parte, foi interessante lembrar que já tive emprego em indústria e minha vida era escritório o dia inteiro, contratos, manuais, reuniões... Não faz tanto tempo - onze anos. Mas deixei esse universo e hoje meu mundo é esta cidade bem menor, meu ateliê e a tela deste computador. Nostagia? Eu andava com um pouco, sim, pois é preciso abrir mão de muita coisa ao optar por uma vida como a que levo hoje. Esse serviço veio em boa hora para me ajudar a ver as coisas dentro das devidas proporções. Então, nostagia? Eu, não! Afinal, o dia está lindo; minha porta da frente, ao lado do computador, está escancarada; a Tailee está dormindo na poltrona; e minha roca está aqui do lado, esperando o próximo projeto.

Por falar em roca, estou preparando uma postagem só sobre elas. Enquanto não publico, vou pelo menos mostrar o que andei fiando nos últimos dias (he he he, para evitar lesões repetitivas, eu fiava nos intervalos da digitação...).

Lembram da minha alpaca? Ainda tenho um pouco de fibra, mas a curiosidade foi grande e fiei pelo menos o suficiente para um projetinho pequeno (fiei três vezes uns 180 metros e depois fiz o plying - resultou em um fio 3-ply, portanto). Estou fazendo uma cowl - um tipo de gola circular, bem simples, fácil de usar:


Vocês devem lembrar que algumas postagens atrás eu comparei dois tipos de processo de fiação - o worsted e o woolen; pois bem, empreguei este último na fiação da alpaca. O fio ficou muito leve e fofo, e a gola está ficando bem rústica; mas - creio que ainda seja cedo para eu afirmar isso - eu acho que prefiro o método worsted, que deixa a lã mais compactada e os pontos com uma definição melhor. Tipo assim:


Reconhecem? É a misturinha de merino e seda que mostrei algumas semanas atrás - naquele dia em que tive um ataque de bobeira e me inspirei na música do Michel Teló para escrever! Já fiei todinha, depois dividi em duas bobinas e fiz o plying; ou seja, esse é um fio 2-ply, cuja definição normalmente não é tão boa quanto a do 3-ply; mas, por causa do método utilizado, ficou melhor, sim - apesar de não tão fofinho e aerado. 

A sensação de tricotar uma amostrinha como essa e lembrar que eu mesma fabriquei o fio é incrível. O processo envolve várias etapas, e quando termino e vejo o tricô surgir sinto-me dotada com os poderes de Greiscow (é, assisti He-Man quando era criança):


Fico imaginando então como deve ser participar do processo todo MESMO - desde o carneirinho, o processamento da lã... mas eu chego lá, podem apostar.

O fato é que não tem de ter superpoderes, não: qualquer pessoa pode fazer - a sensação de autosuficiência é que nos faz sentir poderosos. E é isso que pretendemos mostrar aqui na cidade, quando o projeto de artesanato da ACAJAL começar a funcionar. Depois eu explico.

Cenas dos próximos capítulos (eu disse que tenho várias postagens prontas na cabeça, então prometo não ficar ausente por duas semanas novamente!):

- rocas;
- feltragem + ACAJAL;
- inglês (o que isso tem a ver?!);
- vídeos de fiação (já estou fazendo testes para poder publicar algo inteligível...)
- o que vou fiar em seguida? Essa coisa linda aqui - merino + seda na cor Pomegranate ("romã"):


Aff... que mais? Sim claro, vem aí o primeiro picknit (pic-nic + tricô no parque) de Pouso Alegre. Em abril.


Até a próxima!