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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A Dama do Tricô

Essa semana eu recebi pelo correio um kit com DVDs que havia encomendado: "Knitting Workshop", com Elizabeth Zimmermann.

O que faz as pessoas se interessarem por esse material até hoje?



EZ, como é chamada no universo dos trabalhos manuais, nasceu na Inglaterra em 1910; estudou na Suiça e na Alemanha, testemunhou a luta pela sobrevivência financeira da família após a Primeira Guerra e foi morar nos EUA um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, acompanhando o marido alemão e nada queridinho dos nazistas. Tirando esse episódio, sua vida foi pacata e centrada. Elizabeth passou a vida educando uma família ("sem televisão em casa"), lendo muito, pintando quadros, tricotando e inventando. Ou "unventing", como ela gostava de dizer em seus vários livros publicados: ela dizia que quase tudo já foi inventado, mas você pode adaptar e aperfeiçoar - ou "unvent'.*

E o que ela "unventou"? Basicamente ela bolou jeitos mais eficazes e simples de se fazer quase tudo em matéria de tricô. Costurar as peças de um suéter não é um saco? Elizabeth criou o suéter sem costura, tricotado em agulha circular. Ficar trocando as cores do fio nas mãos é difícil? Elizabeth descobriu que é possível tricotar com as duas mãos ao mesmo tempo, uma cor em cada mão, para criar padrões. Não consegue encontrar uma receita de suéter que sirva para seu fio e sua tensão? Elizabeth criou o sistema EPS - ou "Elizabeth's Percentage System": não importa o fio ou a tensão, é só você definir o número de pontos para o corpo do suéter; o restante das medidas são porcentagens fixas desse número inicial. Receitas, nunca mais!

Além da inventividade, o talento para ensinar também estava presente: EZ parecia antecipar as dúvidas que as tricoteiras teriam na execução de suas instruções, e sabia como nos esclarecer e tranqüilizar. Houve mais de uma situação em que fiquei na dúvida, e li em seguida: "Eu sei que isso parece confuso, mas tenha fé e confiança, pois logo essa manobra fará sentido." E fazia. Seus livros me convenceram de que eu era capaz de fazer coisas que eu julgava impossíveis, antes - como meu primeiro par de meias. Ela prova por A + B que todo mundo pode fazer, sim.

Enfim, Elizabeth revolucionou o tricô e através de seus livros ofereceu aquilo que é o maior presente para qualquer artesão: liberdade de criação. Autonomia. Independência. Ela também advogava o uso da lã natural (opa, temos algo em comum!) e falava sempre em "resourcefulness" - palavra que já me inspirou uma postagem.


Mas não é por isso que seus livros são raros e venerados até hoje. Não foi por causa disso que sua família fundou a editora School House Press, adminstrada hoje por sua filha Meg Swansen; não é por isso que até hoje centenas de tricoteiras disputam vagas nos acampamentos de verão que Meg organiza (iniciativa de Elizabeth, anos atrás). E não foi , também, por causa do tricô que comprei os DVDs com todas as aulas que Elizabeth apresentou na TV americana.

O fato é que,  muito mais do que uma grande tricoteira e "unventora", Elizabeth Zimmermann era um ser humano iluminado, com um carisma e capacidade de comunicação formidáveis. Seus livros não são lições de tricô. São literatura. Ela ensina o que tem a ensinar, mas faz isso "conversando", tecendo histórias, salpicando ironias aqui e ali, entretendo. Nos dois primeiros livros ela fez isso sem intenção, mas em "Knitting Around" seu talento para escrever já era tão respeitado que as histórias foram incluídas no livro de propósito: capítulos intercalados com as lições, contando sobre sua infância, seus tempos estudando arte na Alemanha, o início do namoro e a escapada estatégica para a América quando o Nazismo ganhou força. Por que as tricoteiras haveriam de se interessar por essas histórias pessoais? Porque o bom narrador sabe tornar qualquer história interessante.

Tendo lido - e relido - todos os seus livros, imaginei: se é tão gostoso lê-la, como deve ser assistí-la? Encomendei o DVD e não estava enganada: pus a primeira mídia no notebook só para testar, mas de cara assisti a três episódios - 25 minutos cada. Não senti o tempo passar.

O material é simples: produção modesta, cenário mínimo, iluminação ruim, chiados, nada de maquiagem ou roupas atraentes à la Ana Maria Braga ... só Elizabeth, de rosto limpo e cabelos brancos, falando sem parar, demonstrando técnicas, um gato branco e preto na bancada e muitos novelos de lã ao redor. Só. Mas é o bastante.


A notícia da morte de Elizabeth Zimmermann, em 1999, ganhou obituário de destaque no New York Times. E em 2010, ano de seu centenário, o livro Knitter's Almanac foi relançado em edição comemorativa de grande sucesso. Inúmeros autores citam Elizabeth em seus livros. No Ravelry, comunidade virtual de tricô e crochê que já mencionei aqui no blog, há 185 projetos seus, todos avidamente tricotados por muita gente. Um deles, um casaco de bebê de construção modular, foi tricotado 18.652 vezes e deu origem a 1.878 postagens em blogs. 

Vou encerrar com uma frase sua: no finalzinho do livro Knitting Around - ou "Tricotando Por Aí" - ela faz um resumo de sua vida, dos altos e baixos, de haver sobrevivido a duas guerras mundiais, das dificuldades, incertezas e recomeços; e faz uma comparação com o tricô: If you drop a stitch, pick it up immediately. Traduzindo: "Se perder um ponto, recupere-o imediatamente".

Editoras brasileiras, que tal lançar esses livros por aqui, em português?

Até a próxima!

* un, em inglês, é um prefixo de negação - como o "des" em português: descarregar, descascar; no trocadilho de Elizabeth, "unvent" seria algo como "desinventar".

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

E as histórias continuam surgindo...

É só revirar que aparece, né?

Quando tive a idéia de implementar aqui em Pouso Alegre um projeto de utilização de lã de carneiro eu parti dos seguintes argumentos:

- aqui faz bastante frio no inverno, e suéter de acrílico não esquenta nada!
- a geografia e a paisagem da região pedem a presença de carneirinhos.

Resumindo: eu não via motivo para não se criar carneiros por aqui (e um veterinário especializado confirmou isso); e não aceito que em outros países as fibras naturais sejam facilmente acessíveis, enquanto aqui a gente só encontra fios sintéticos nas lojas.

O desenrolar disso eu já contei aqui: consegui lã natural, bruta, no Rio Grande do Sul, comprei uma roca e passei a fiar minha própria lã (quem conheceu o blog depois disso pode ler essas postagens lá nos arquivos de dezembro, janeiro e fevereiro).

Mas eu não nasci para guardar as coisas só para mim. Sou do tipo que experimenta algo novo e não sossega enquanto não faz todos à sua volta experimentar também. Venço pelo cansaço. Esse trabalho com as fibras virou minha paixão, e comecei a tagarelar sobre ele com todo o mundo. A ponto de os amigos  me presentearem com miniaturas de carneirinhos! E conversa daqui e dali, as histórias começaram a surgir - de gente que lembra de pais ou avós criando carneiros, cardando lã, recheando acolchoados, fiando. Aqui na região. Não vou citar o link para nenhuma postagem em especial porque já falei de histórias assim várias vezes aqui no blog. O caso mais recente que contei, umas duas ou três postagens atrás, foi o da D. Zélia Scholz, artesã famosa de Curitiba. Ou eu achava que era de Curitiba. Na verdade ela é de Jacutinga, aqui pertinho, e cresceu aqui aprendendo seu ofício com a mãe e a avó. Ela é o principal exemplo vivo de que essa atividade já foi comum no sul de Minas.

E por que isso desaparece? Por que as tradições acabam? A gente se perde no emaranhado da vida moderna e se esquece de cultivar a habilidade manual, de respeitar os processos bem mais naturais e intuitivos que nossos ancestrais empregavam para obter os produtos de que precisavam. Como já falei aqui antes, vivemos na era do pegue-e-pague. Compramos tudo.

O projeto AVE LÃ! surgiu para reverter isso: Nós do núcleo de artesanato da ACAJAL pretendemos pesquisar e registrar os vestígios que ainda restam dessa atividade. E reativá-la! Estamos conversando com pessoas, fotografando, indo atrás. E as histórias vão surgindo.

Ontem uma aluna minha de patchwork veio para a aula aqui no ateliê, mas quem aprendeu algo fui eu: ela trouxe as cardas que eram da mãe e mostrou que, quando menina, observava muito bem os "grandes" enquanto processavam a lã:


D. Jesusa é de Borda da Mata, a 15 minutos daqui, e seus olhinhos brilharam enquanto demonstrava o trabalho que a mãe fazia. Infelizmente ela não sabe dizer o que foi feito da roca da família, e isso é um fato comum. O antigo não é preservado - é substituído pelo novo, e ponto final.

Já questionei muito o motivo da não preservação dessas relíquias... e recentemente encontrei uma resposta muito convincente no livro Design + Artesanato - O Caminho Brasileiro, de Adélia Borges. Em um capítulo entitulado "Histórico de um Isolamento", a autora expõe o resultado de suas pesquisas sobre esse tema, e comenta que em muitos países o design evoluiu a partir da tradição artesanal. No Brasil, ao contrário, esse processo significou a ruptura com o "saber ancestral": a herança dos tempos anteriores à chegada dos portugueses e oriunda de tantos fluxos migratórios foi simplesmente desconsiderada e desvalorizada.  Por que? Diz ela (grifos meus):

"O desejo deliberado de abolir o objeto feito à mão em prol do feito à máquina obedeceu  à visão de que a tradição da manualidade era parte do passado de atraso, subdesenvolvimento e pobreza, que o futuro promissor proporcionado pelas máquinas faria superar. Em nome do progresso e da desejada inserção do Brasil no concerto das nações desenvolvidas, melhor seria sepultar essas práticas empíricas e substituí-las pelo Novo, com N maiúsculo, redenção que seria trazida por um futuro pautado pelos princípios puramente racionais - a Ciência, a Técnica, a Metodologia."

Ui. Isso é muito triste. Felizmente, ainda segundo o livro da Adélia, há muitos projetos bacanas conduzidos por instituições e indivíduos que visam reverter esse pensamento. O AVE LÃ! não está no livro, mas tem a pretensão de ser um deles.

"AVE" é uma saudação, uma reverência. Nesse caso, reverência e respeito a uma matéria-prima que podemos voltar a ter aqui na região, e que é perfeitamente sustentável.

O Clube do Retalho de Pouso Alegre, outra subdivisão do Núcleo de Artesanato da ACAJAL, está organizando para o final de outubro a 4ª Mostra de Patchwork de Pouso Alegre. A exposição permanecerá aberta ao público durante 12 dias, e nesse período vamos apresentar o projeto AVE LÃ. Aguardem mais informações. 

Enquanto isso, vamos à caça de outras histórias. Obrigada, Jesusa, por compartilhar a sua conosco!

Até breve!

P.S.: Todo mundo, todo mundo mesmo, que lida com artesanato e trabalhos manuais devia ler o livro da Adélia. Imperdível. Agradeço ao artista plástico Domingos Tótora (sobre quem escrevi aqui) pela dica de leitura.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Vozes e Fios

"Era uma vez uma voz.
Um fiozinho à toa. Fiapo de voz.
Voz de mulher. Doce e mansa.
De rezar, ninar criança,
muitas histórias contar.
De palavras de carinho
e frases de consolar.
Por toda e qualquer andança,
voz de sempre concordar.
Voz fraca e pequenina.
Voz de quem vive em surdina.
Um fiapo de voz que tinha todo o jeito de não ser ouvido...".

Assim começa o livro "Ponto a Ponto" de Ana Maria Machado, editado pela Companhia das Letrinhas.



A "voz" em questão vai contar muitos trechos de estórias clássicas mundialmente conhecidas dentro da estória principal. Todas têm a ver com as mulheres e o trabalho manual têxtil feminino. Assim, temos a lenda de Aracne; da menina que teceu túnicas para salvar os irmãos enfeitiçados; da Bela Adormecida e sua desventura causada por uma roca (ou antes, uma bruxa); da jovem que supostamente fiava palha em ouro; das velhas que fiavam e controlavam a vida dos outros...e muitas outras.

Mas bacana mesmo é a estória principal: porque a tal voz mansinha e submissa vai virar um vozeirão - vai aprender com as estórias que conta e com seu próprio trabalho manual. E vai se libertar.

Enquanto a voz vai contando estórias e se transformando, o leitor vai se deliciando com as ilustrações singelas de Cristiane Röhrig, bordadas à mão:





Eu tenho esse livro já faz alguns anos, e de vez em quando gosto de reler. E relendo mais uma vez não pude deixar de fazer uma associação com o filme "O Discurso do Rei", que assisti recentemente. No filme (estória verdadeira) o príncipe gago relutantemente se torna rei por conta da abdicação do irmão mais velho. E tem de aprender a impôr sua voz. Na melhor cena do filme (que felizmente faz parte do trailer abaixo) ele finalmente percebe isso discutindo com seu professor de oratória:


Pois é.. encontrar a própria voz em um mundo de tantas influências é bem complicado... o livro da Ana Maria Machado, aparentemente infantil, também faz gente grande refletir!

Inté!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Tirando do Baú

Semaninha corrida, sô!

O que? Hoje ainda é segunda-feira? Ok, falo da semana passada, então. Essa promete ser mais corrida ainda - com feriadão, aniversário do filho, etc.

Tenho fiado pouco e tricotado muito - inclusive um cachecol da Hogwarts que meu filho vai usar em sua festinha de 8 anos à Harry Potter:



Nessa época de frio intenso aqui  no Sul de Minas dá vontade de tricotar mais e os pedidos dos filhos e amigos surgem de montão. Mesmo assim, nas brechinhas de tempo vou fiando o que posso, e aos poucos vai saindo alguma coisa. Hoje vou mostrar o resultado de um projeto de vários meses atrás. Lembram quando mostrei o merino colorido que comprei da La Rocca? Esse aqui, ó:


O branquinho ainda está por aqui, mas terminei de fiar todo o bege e o marrom, e hoje experimentei os fios pela primeira vez; como as quantidades de cada cor são reduzidas, estou pensando em um projeto bicolor - por isso fiz a amostrinha assim:

Padrões coloridos pedem um fio com maior definição do que meu humilde merinozinho fiado em casa, de torção dupla (2-ply). Mesmo assim achei que a amostra ficou simpática, e o fio até que é razoavelmente gostoso; esse é um merino bem mais rústico do que o branquinho, e mais apropriado para uma peça que não seja usada diretamente sobre a pele. Estou namorando este poncho - espero que o fio seja suficiente para uma versão mais curtinha:


Essa peça é do Custom Knits Accessories, novo livro da Wendy Bernard - cheia das boas idéias!

E vocês lembram do velo de carneiro que ganhei em janeiro e fui buscar na roça? Aquele que veio para casa "perfumadinho", no porta-malas do carro - um pacotão enorme como um "presunto"?

Falei dele nessa postagem, mas depois disso não dei continuidade ao assunto; é uma história longa  envolvendo teias de aranha, extrume e um certo desânimo, mas parece que o final vai ser feliz: estou fiando o danado! Na próxima postagem eu conto.

Inté!

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Novos Fios na Área

Em postagens bem recentes eu mostrei esses dois lançamentos nacionais 100% lã de carneiro. Eu os descobri pela internet, e a curiosidade de experimentar foi grande. Encomendei, e eles chegaram ontem.


O novelo em tons de roxo à esquerda é o Confor da Pura Fibra, que eu havia mostrado aqui. A cor é mais bonita pessoalmente do que na foto, e o toque da lã é bem agradável. O fio também se comportou bem nesta amostrinha:


Por "bom comportamento" eu quero dizer boa elasticidade e boa definição dos pontos. O que não passou muito em meu teste foi o colorido: esse é um fio tipo self-striping - ou "que cria listras sozinho". Não sou muito de fios matizados, ou pelo menos prefiro que o matizado seja mais sutil - com uma variação de cor mais freqüente, com menos contraste e que não chegue a formar listras. Mas gostos variam, né? O mundo seria muito chato se todo mundo tivesse gosto igual. Na verdade, não é que eu não goste dos coloridões: é que normalmente eles brigam com o tricô - se for utilizado um ponto muito elaborado fica uma confusão visual só. Como ando em uma fase de experimentar muitas técnicas e pontos novos, prefiro um fio de colorido mais discreto.

Deixando a cor de lado, a qualidade da lã superou minha expectativa. Eu não estava lá muito otimista porque o produto é descrito apenas como 100% lã, sem especificar que tipo de lã. E existem centenas. A pesquisadora Clara Parkes faz uma colocação interessante em seu livro The Knitter's Book of Wool: ela explica que cada tipo de lã é mais indicada para um propósito ou outro, e não existe "lã boa" ou "lã ruim"; existe lã imprópria para determinado fim. No entanto, os fabricantes no mundo todo sempre descreveram seus produtos simplesmente como "lã". A autora vai adiante comparando essa situação com a fabricação do vinho: há diversos tipos de uvas, e os bons vinhos são indentificados como Cabernet, Chardonay, Merlot, etc. Como fabricar um produto, engarrafar e escrever no rótulo "100% uva"? Felizmente, segundo ela, isso está mudando, e os bons fabricantes já identificam seus fios de acordo com a raça do carneiro: Merino, Shetland, Targhee, etc. Por isso fiquei agradavelmente surpresa com o fio "100% lã" da Pura Fibra: seja lá qual for a raça, o toque é gostoso e eu tranqüilamente faria um cachecol para enrolar no pescoço.

A Pura Fibra também marcou pontos no atendimento ao cliente: enviei um e-mail para eles elogiando a iniciativa e, muito rapidinho, recebi resposta super gentil, agradecendo o contato e o incentivo, e dizendo que a opinião do consumidor é importante. Achei bacana porque já enviei e-mails com comentários e sugestões a outros fabricantes, e nunca recebi resposta.

O único porém é: a embalagem informa que o fio é fabricado na Turquia. No eBay existem milhares de ofertas de tipos variados de fios de um fabricante na Turquia. Eu mesma já comprei desses fios em algumas ocasições, e são bons. Mas são muito, muito baratos: tipo um lote com 8 novelos, totalizando 1200 metros, por 12 dólares. Por que o preço tão baixo? Dá para desconfiar, né? O preço do novelo do Confor está racional, então espero que sua procedência seja justa. 

O outro lançamento, que eu havia comentado nessa postagem, é o Da Fazenda, fabricado pela Fazenda Caixa D'Água. Esse meadão que, depois de desenroscado, ficou enooooorme:


100% merino de carneirinhos brasileiríssimos. Fiação artesanal. Tingimento natural. Segundo o fabricante, essa cor que comprei (116) é tingida com carqueja. 

Este fio é um single - ou seja, a torção só foi aplicada uma vez: não houve segunda torção de vários fios juntos. O processo de fiação me parece ser o woolen, que deixa a lã mais fofinha e aerada. (Já expliquei sobre fios single ou plyed aqui, e falei sobre o processo woolen de fiação aqui). Eu a-m-o os singles. O problema deles é que ainda não sei fiá-los com destreza. É preciso ter consistência, uniformidade quase total na espessura, e eu ainda cometo deslizes. O processo de plying retorce dois ou mais singles juntos, minimizando as discrepâncias, morou? Mas um single assim lindão, fiado por quem tem experiência, é show!

A qualidade da lã está acima de qualquer suspeita - é só pôr a mão; comparável a fios semelhantes que comprei lá de fora - como o Malabrigo e o Madelinetosh. Só acho que eles erraram um pouco na classificação da espessura: a descrição é Worsted, mas achei que ele está mais de Aran para Bulky*. Eu tricoto folgado e normalmente uso agulhas de 4 mm para fios worsted. Fiz uma amostra com agulhas de 6 mm, na boa:


A cor é mais verdinha do que parece na foto, e tem umas variações sutis, típicas do tingimento artesanal, que eu adoro. Difícil agora é decidir o que fazer com essa maravilha!

*Explicando as classificações: segundo a tabelinha do Craft Yarn Council (um órgão que regulamenta e classifica os fios para artesanato nos EUA)  avalia-se a espessura de um fio em Wraps Per Inch (WPI) - ou "voltas por polegada": é só enrolar o fio em uma régua e ver quantas voltas são necessárias para preencher uma polegada (= 2,54 cm). As classificações por espessura vão de 1 a 6, sendo 4 a espessura média - ou worsted: 12 WPI; o fio Da Fazenda mediu 10 voltas por polegada, caindo no limite entre as categorias Aran e Bulky. 

Uma ressalva sobre este fio: ele já vem tratado para não encolher nas lavagens; isso normalmente indica que o fio não se presta a trabalhos feltrados. Mas eu ainda não falei sobre feltragem - breve vou explicar melhor!

Até a próxima!

quinta-feira, 29 de março de 2012

Alhos & Bugalhos

Já, já eu explico o título.

Seria ótimo se, a cada vez que tivesse uma idéia ou desejasse compartilhar algo aqui, eu tivesse disponibilidade para sentar, escrever e publicar. Uma postagem rapidinha, simples. Haveria postagens todo dia, eu garanto. Mas ainda estou adquirindo prática nas rapidinhas (refiro-me às postagens, tá?) e enquanto isso acabo mesmo acumulando várias pequenos assuntos e escrevendo postagens longas. Então vamos lá - hoje vou até numerar os assuntos:

1) Terminei de tricotar a peça com o fio merino + seda fiado em casa. Demorei para escolher uma receita, mas acabei optando por uma bem simples (receita do Ravelry, gratuita) porque o fio já faz o show sozinho. Fiz esse mini-xale/lenço de pescoço:

2) Desmanchei a gola que tinha tricotado com a alpaca fiada em casa - mostrei na última postagem, lembram? Motivo: a alpaca não tem crimp. Expliquei o que é isso aqui, mas só para relembrar: crimp é o que dá elasticidade às fibras animais. Sem crimp, o fio pronto tem zero elasticidade, e a peça tricotada pode "crescer" e deformar com facilidade. Desmanchei, e escolhi outra receita; novamente, optei pelo simples: fiz outra gola sem costura em agulha circular, mas desta vez escolhi um ponto já elástico - uma sanfona rendada que utilizei também nesta peça (atenção: para tricotar essa receita em agulha circular, sem costura, é preciso modificar as carreiras pares: onde é meia faça tricô,onde é tricô faça meia). Desta vez o resultado foi legal:
Vivendo e aprendendo, né? Mas para aprender a gente tem de estar disposto a errar, desmanchar, refazer, arriscar.

3) Comecei a fiar a misturinha de merino + seda que mostrei na última postagem - em outra cor. Está ficando assim:

4) A editora Interweave, que publica a revista Spin-Off - sobre fiação artesanal - disponibiliza as publicações também em CDs. Como só me tornei assinante em 2011, encomendei, toda boba, o CD com as quatro edições de 2010:

A revista é muito informativa, super didática e aprendo muito com uma única edição.  Um CD com quatro edições seria o paraíso, né? Não quando tem algo em seu DNA que te impede de apreciar a leitura na tela do computador. Muito curioso, isso: eu uso o computador de montão, mas na hora de ler, não rola: bom mesmo é me esparramar na poltrona, em qualquer posição, com a revista na mão. Mas estou tentando. Providenciei até esse trem aqui, para pôr o notebook:

Ontem à noite li metade de uma edição na cama, com esse bandejão no colo. Mas não tem jeito: para pegar no sono, precisei pôr o notebook de lado e ler um livro, mesmo! Aí, depois de uma ou duas páginas, bojei.

5) O livro era esse aqui: 

Life lists são aqueles listões em moda hoje em dia - tipo "1000 discos para ouvir antes de morrer". O livro apresenta diversas listas de coisas que uma tricoteira deve aprender ou fazer antes de morrer. É uma proposta muito interessante porque a gente tende a se acomodar em um nicho de conforto, e fica fazendo sempre o que já sabe. A autora cutuca, provoca, aguça a curiosidade e a gente acaba aceitando os desafios. Por exemplo, eu sempre fugi de uma técnica chamada provisional cast-on - "montagem provisória dos pontos": é um jeito de montar os pontos que permite, no final, que você desfaça a montagem, pegue novamente os pontos e saia tricotando na outra direção. O livro provocou e eu resolvi experimentar um projeto com essa técnica - comecei ontem essa peça:

Mas ainda estou no comecinho: a peça não é minha, e não sou a moça da foto, infelizmente. É uma peça do livro Custom Knits 2, da Wendy Bernard (outra cutucadora que não dá só receita prontinha: ensina e faz a gente querer customizar as peças).

Mas voltando ao livro que estava lendo ontem à noite: estou em um capítulo que fala dos museus que uma tricoteira deve visitar. Tudo logo ali na esquina, como o Shetland Museum. As ilhas Shetland ficam ao leste da Escócia, beeeeem ao norte:

Não disse que era logo ali? Por causa do isolamento, as ilhas preservaram uma raça de carneiros - do mesmo nome - extremamente primitva e pura, cuja lã é muito valorizada. O museu conta a história da raça e da evolução das técnicas têxteis ao longo dos séculos. 

Enquanto não tenho condições de visitar esses lugares (condições essas que, tudo indica, não virão antes do término da presente encarnação), vou curtindo os livros (não é bacana saber do que existe aí pelo mundão afora?) e tirando casquinha dos mimos que recebo de pessoas que viajam e lembram de mim. Ontem ganhei este dedal de porcelana de uma aluna que esteve em Paris:

E minha irmã trouxe do Uruguai esta lã puríssima, artesanal:

Se alguém aí for às ilhas Shetland, eu aceito um velo de carneiro!

Bom, depois de todos esses assuntos, acho que está explicado o título da postagem, né? Mas eu prometo, mesmo, que não vou mais deixar que os assuntos se acumulem assim!

Palavra de tricoteira (e fiandeira).

Até a próxima!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Sintéticos X Naturais

Tem mais novidade no mercado: hoje recebi e-mail anunciando a coleção 2012 da Círculo. Mas... adivinharam? Mais uma vez, tudo sintético. Muitos pompons e fios fofinhos, muito colorido... e nada natural.

A essa altura já deve ter gente se perguntando: Por que tanta implicância com os sintéticos? São práticos, duráveis, fáceis de lavar, baratos (nem tanto) ...

Ok, vou tentar explicar. Há vários motivos:

1. Desculpem, mas o toque dos sintéticos é desagradável. Artificial. Duvido que alguém que tenha tricotado com fios 100% lã de boa qualidade se contente em tricotar com sintéticos.

2. Os sintéticos não têm uma característica importante da lã - a resiliência: um suéter de lã que tenha alargado com o uso só precisa ser lavado e blocado novamente. Blocar é umidecer a peça, arrumá-la em superfície plana no formato e tamanho desejados e deixar secar. Fibras sintéticas não podem ser blocadas.

3. Os sintéticos formam bolinhas na superfície com rapidez incrível (como as blusinhas de viscolycra e os lençóis de poliéster).

4. Um fio 100% natural pode ser produzido por qualquer pessoa, em qualquer lugar, com equipamento mínimo (escovas de pentear cachorros e um fuso tosco de madeira), sem agressões ao meio ambiente: depois de tosquiar o carneiro, todos os demais processos podem ser feitos até dentro de um apartamento: lavar a lã, cardar, pentear, fiar, tingir e tricotar. As fibras animais também aceitam o tingimento vegetal.

5. Os sintéticos não proporcionam conforto térmico; vista uma camisa de poliéster: se estiver calor, você vai sentir mais calor (e sua transpiração não vai evaporar); se estiver frio, você vai sentir mais frio.

Mas é preciso prestar atenção ao que se rotula de natural ou sintético. Vejamos alguns tipos de fibras:


PROTEÍNAS

As fibras protéicas são todas de origem animal: a lã das diversas raças de carneiros, o cabelo dos camelídeos (lhamas, alpacas, camelos), o pelo das cabras (os mais usadas são o cashmere e o mohair) e dos coelhos angorás, a seda da lagarta... Há ainda as fibras de animais raros: alguns exemplos são o búfalo Musk do extremo norte das Américas, que fornece a caríssima fibra chamada de Qiviut; as vicuñas e guañacos, que estão sob proteção de organizações mundiais; e os iaques do Nepal e Tibete. Todas essas fibras se enquadram na categoria que só precisa de um simples processamento doméstico. As fibras protéicas também são consideradas mais éticas porque não exigem que os animais sejam sacrificados; ao contrário, as fibras precisam ser removidas para o bem estar do animal. Um caso curioso é o búfalo Musk citado acima: extremamente selvagem, abordar o animal para remover a fibra está fora de questão; mas, em certas épocas do ano, as fibras caem naturalmente e são substituídas por uma nova pelagem; só é preciso recolhê-las do chão.


O búfalo Musk vive em áreas de proteção no Canadá e Alasca. Não parece a fera do filme da Disney? Eu sempre achei ele fofinho...

O coelho angorá deve ser escovado constantemente e suas fibras removidas: diferentemente dos gatos, ele não é capaz de vomitar as bolas do pelo que ingere, e pode morrer se as fibras não forem removidas regularmente.

Já existem publicações especializadas em fibras raras e selvagens, como a revista Wild Fibers.

CELULOSE

São fibras de origem vegetal: tradicionamente, o algodão e o linho. O algodão fornece os tufos na própria planta, e no caso do linho produz-se o fio a partir de fibras dos caules. Mas o homem pesquisou e, durante o último século, descobriu como produzir fibras de celulose a partir de outras plantas: as mais comumente usadas são a soja, o bambu e, acreditem, a maconha (vejam bem, é uma variedade diferente, não a que usam como entorpecente!). O processamento resulta em fios sedosos e escorregadios - tipo viscose - que drapeiam bem. Muitas vezes eles são misturados a outras fibras para dar caimento: algodão + bambu, por exemplo, é uma combinação comum.

MAS... apesar de essas fibras serem vendidas como "naturais", o processo de fabricação não tem nada de natural: usa-se química pesada para separar partes da planta; mais química para amolecer as fibras e criar uma espécie de pasta moldável; essa pasta passa por uma "peneira" - ela expele os fiozinhos extrudados que mergulham direto em uma solução contendo... muita química!

Alguns nomes bacanas que aparecem na descrição desse processo (vou citar os termos em inglês mesmo porque são nomenclatura química e devem ser semelhantes em português): sodyum hidroxyde, carbon disulfide, sodyum xanthogenate, sulfuric acid (esse a gente sabe a tradução de cara, né?), N-methylmorpholine-N-oxide, methanol and ethanol*. Ui! 

Luvinhas sem dedos tricotadas com fio que mistura cashmere, algodão, lã de carneiro e soja. Ficaram suaves, confortáveis e quentinhas, mas o processamento da fibra de soja - que deixou o fio mais sedoso - ainda é agressivo demais. Há pesquisadores trabalhando para conseguir o mesmo resultado sem prejudicar o meio ambiente.

O algodão é exceção - seu processamento pode ser totalmente natural, como o das fibras protéicas. Ele não protege do frio, mas proporciona conforto térmico no calor. Eu uso de montão - os tecidos para patchwork são 100% algodão! Também acho os fios de algodão ótimos para fazer crochê. Mas, para tricô, não sei bem o motivo, mas não gosto muito. Acho que é porque o tricô é mais usado para vestuário, e uma blusa tricotada em algodão fica mais pesada, deforma e estica com facilidade - e o algodão também não pode ser blocado. Além disso, o algodão seria usado para tricô de verão, que pede um fio mais fino, delicado... e agulhas de numeração menor também. Já tentou tricotar uma blusa inteira com agulhas de 2.5 mm, 3 mm? Eu já tentei. Três verões atrás. Não terminei até hoje.

E aí temos as fibras assumidamente sintéticas - poliéster, poliamida, acrílico. Todos materiais termoplásticos. Nem é preciso falar mais nada, né?

Bem, dei essa volta toda para explicar porque fico suspirando e esperando o lançamento das coleções anuais de fios - e sempre me decepciono!

Quando o outono chegar eu e algumas amigas organizaremos um encontro tipo "Tricô no Parque" aqui em Pouso Alegre. Esse encontro era para ter acontecido no horto municipal em outubro do ano passado - já estava anunciado e havia várias adeptas; mas o horto entrou em reformas. Agora, temporada de calor e chuvas, não dá. Mas logo vamos realizar esse projeto, e lá teremos muitas agulhas e sobras de fios de diversos tipos para quem desejar experimentar. Aposto que vão cair de amores pela lã! Nesses encontros também pretendo levar fusos e quem encarar o desafio vai aprender a fiar, também.

Aguardem - em abril!


Por falar em fiar, o tempo refrescou um pouco e tenho fiado bastante - logo vou poder mostrar minha alpaca, que está ficando lindona.

Mas essa postagem já está enorme e não vou entrar em detalhes agora.

Boa semana para todos!

*Fonte: The Intentional Spinner - a Holistic Approach to Making Yarn, livro que vai fundo no universo das fibras e, no próprio título, já indica que temos uma responsabilidade!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

2 Milhões de Tricoteiras?!

Esta noite entrei no Ravelry - entro várias vezes por dia! - e dei com esse comunicado:


Hoje o membro nº 2.000.000 se inscreveu. 2 Milhões!

Em uma de minhas primeiras postagens eu citei uma série de dados tentando mostrar como está o universo dos trabalhos manuais envolvendo fibras têxteis. Agora me digam se não é estarrecedor existir uma comunidade online reunindo 2 milhões de tricoteiras?

Isso é o Ravelry: uma comunidade. Gigantesca. Tudo começou com a paixão de uma pessoa - Jessica Forbes - pelo tricô. E descobrindo que havia muito recurso na internet, arrebanhou o marido, Casey, para ajudar a organizar*. Casey, fera em informática, criou uma plataforma impressionante para gerenciar aficcionados, receitas, tipos de fios, fabricantes, publicações... ufa! É um negócio sensacional, e quem faz parte suspira porque poderia existir um Ravelry para tudo o mais em nossas vidas, não só o tricô (há crocheteiras também, mas o tricô é mais forte por lá). 

O Ravelry hoje é mundialmente famoso (no ambiente craft) e organiza eventos, participa de congressos e feiras, é mencionado em publicações importantes. 


Eu estou por lá desde julho de 2009 (é grátis), e vou contar uma coisa para vocês: esse negócio mudou minha vida! Mudou minha forma de tricotar, influenciou meu estilo, me abriu um universo novo... e foi lá que eu descobri, pela primeira vez, que tem muuuuuita gente fiando a própria lã. Imaginem se eu não ia querer fiar também...

E assim deveria ser a vida, né? A gente precisa sempre buscar estímulos, novidades, desafios... no departamento tricô, o Ravelry tem desafio de sobra para quem tem curiosidade e desejo de aprender. Um exemplo? Vou fazer uma busca por receitas e mostrar para vocês o resultado. O banco de dados do site é enorme e te direciona para receitas gratuitas ou pagas, para livros que contém receitas como a desejada, etc.  Mas digamos que eu esteja interessada apenas em receitas de coletes femininos, gratuitas e disponíveis imediatamente; apareceram 1.819 resultados. Se preferir, posso filtrar minha busca: quero só as receitas  tricotadas com lã de espessura média a grossa - apareceram 61 resultados. Aí eu escolho uma. Mas será fácil? Ficará boa? Na dúvida, eu clico na receita escolhida e o site me mostra quantas pessoas já tricotaram aquela receita, o que elas acharam do resultado, sua opinião quanto à dificuldade, e que fio utilizaram. 


Repararam nas linguetas no alto da página? 741 pessoas já tricotaram essa receita (e seu eu clicar lá eu vejo o que cada uma achou), e 50 pessoas já comentaram a peça em seus blogs. Há sugestões de fio para utilizar e muitos outros detalhes.

Enfim, um site desses devia ter um aviso tipo: "PERIGO DE DEPENDÊNCIA PSICOLÓGICA".

Eu não vivo mais sem ele. E esta sou eu no Ravelry: lá reúno minha biblioteca de receitas, os projetos que já fiz, minha fila de projetos (chamada de "queue", tem só oito idéias - viram como ando contida?), meus favoritos, etc.:


Parabéns pelo 2.000.000º membro, Ravelry!

E já que falei em ter curiosidade, vou encerrar com essa frase de Walt Disney, citada no final do filme "A Família do Futuro":

"Por aqui, no entanto, nós não olhamos para trás durante muito tempo. Seguimos adiante, abrindo novas portas e fazendo coisas novas, porque somos curiosos... e a curiosidade nos leva continuamente a novos caminhos."

Até a próxima, e sejamos curiosos!

*Fonte: Craft Activism, livro bacana da Joan Tapper com fotografias de Gale Zucker; as duas se uniram para mostrar como tem gente por aí usando o artesanato para brigar por suas causas. Elas também mantém um blog para dar continuidade às histórias do livro. 

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Livros Craft - onde comprar

Como tenho postado links de compra de livros que citei aqui, fizeram-me muitas perguntas sobre as lojas on-line, preço, frete, qualidade, etc. Vou tentar responder tudo nesta postagem.

Sempre que menciono um livro eu insiro um link para o título no site da Amazon ou da Better World Books. A Amazon é uma loja gigante que vende livros e tudo o mais, mas eu não compro deles: acho o frete caro e a entrega, demorada. Mas o site é ótimo para pesquisar os títulos, e tem uma função chamada look inside - ou "olhe dentro": dependendo da permissão da editora, é possível "folhear" parte dos livros à venda. Isso nem sempre ajuda - algumas editoras só liberam contra-capas, índices e pouquíssimas fotos; mas em alguns casos dá para olhar bem e ter uma noção legal sobre o livro - se vale à pena comprar ou não. Eu particularmente desconfio quando a editora mostra pouco: quando o livro é bom eles sabem que mostrando isso as pessoas comprarão.

Outra função interessante da Amazon é a avaliação do leitor - as cinco estrelinhas; eu procuro ir atrás dos livros que foram avaliados por muitos leitores - e avaliações positivas, naturalmente.

Maaaaaas.... na de comprar eu prefiro a Better World Books (e quando um livro não oferece a função "look inside" no site da Amazon, eu posto o link para a BWB). Conheci essa loja há uns 5 anos e virei freguesa assídua porque:

- a loja é beneficente: trata-se de uma empresa sem fins lucrativos; eles financiam projetos de alfabetização e valorização da literatura no mundo todo - inclusive um em Maceió;

- A BWB é uma "B-Corporation": empresa certificada, comprometida com a sustentabilidade, a responsabilidade social e o consumo racional;

- o pessoal lá trabalha de bom humor: sabe aquelas mensagens de confirmação de compra, liberação do pedido, etc., que a gente recebe quando faz compras on-line? Os caras lá são criativos e as mensagens que eles escrevem são hilárias - cumprem a função administrativa com muita originalidade. E não é legal lidar com gente bem humorada? Enfim, o serviço é ótimo e eles fazem de tudo para a gente ficar satisfeito.

Recentemente a BWB também conseguiu uma parceria com o serviço de postagem e o frete é grátis. Para o mundo todo. Eles vendem principalmente livros usados; eu compro sempre e o estado de conservação é sempre legal - dá para confiar! Os preços são excelentes (já peguei uma promoção e comprei oito livros usados por 32 dólares!) e os pacotes normalmente chegam em três semanas. Raras vezes tive pacotes extraviados; nesses casos, uma palavra e eles enviam novamente sem qualquer custo. Certa vez comprei um livro usado mas a folha de moldes não veio; reclamei, e eles me enviaram uma cópia novinha do livro, sem cobrar nada!

E aqui no Brasil? Aqui eu compro livros da Livraria Cultura: é a única loja que mantém um estoque maior de livros de artesanato importados para entrega imediata (e o que não está no estoque eles mandam vir, mas aí demora cerca de 6 a 8 semanas). Os preços são super justos: um livro importado que custa 120 reais em uma loja especializada em patchwork custa 45, 50, 60 reais na Cultura.

Mas vale lembrar que esses livros são todos em inglês, certo? Infelizmente, quase não temos livros da área de trabalhos manuais em português; as editoras estão começando a se interessar pelos livros de tricô e de patchwork - temos uns três ou quatro bons lançamentos recentes. Mas para ter acesso às novidades mesmo, só trazendo de fora.



Está nos planos do blog postar aqui resenhas de livros, mas por hoje é só!

Abçs!

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Por amor à arte (ou "Perdendo o medo de aranhas")

Título longo, né? É que as emoções são muitas... afinal, não é toda sexta-feira que eu acordo cedinho e vou à roça buscar um velo de carneiro.

Eu tinha dito que ia fotografar a tosquia, mas ela ainda vai ser agendada; fui hoje buscar um velo que o Seu Arlindo, administrador da propriedade, já tinha guardado há algum tempo. "Guardado". Esclarecendo: estava dentro de um galão sem tampa, debaixo de um telheiro com muitas teias suspeitas; ele ia incinerar a lã, como de costume, porque não tem o que fazer com ela, mas a partir de agora vai guardar para mim. E aí, diante de meus olhos arregalados, Seu Arlindo foi enfiando a mão no galão e puxando láaaaa de dentro os punhados de lã bruta. Diálogo:

Eu: Tem bicho aí não, Seu Arlindo?
Ele: Bicho? (morando lá, esse termo para ele deve ser bem vago, a abrangência é grande...)
Eu: Carrapato, aranha...
Ele: Normalmente não... ( e começou a sacudir bem a lã para me convencer, como se isso fosse possível)
Eu: É que tem tanta teia aqui, né?
Ele: Teia de aranha?
Eu: É, aranha.
Ele: (me tranqüilizando) Aranha faz parte, né?
Eu: (...) (tentando não desmaiar)

Bem, aparentemente não havia bichos. Pelo menos não aracnídeos, o que já é um consolo.

Além do pacotão que perfumou meu carro, cheguei em casa munida também de uma bacia grandona, um par de rasqueadeiras (oficialmente servem para pentear cachorros, mas me informaram que funcionam como cardadeiras de pentear lã), um par de luvas e um vidro de sabão líquido suave (apesar de ser grande a tentação de usar água sanitária). Vou ter de lavar e pentear aquele negócio. Eu nunca fiz, nem vi ninguém fazer isso - estou contando com meus livros e vídeos. E com minha fé. Ainda não tenho como avaliar a qualidade da lã - não creio que servirá para fiar, mas deve servir para feltragem (eu sei, prometi escrever sobre feltragem - breve!).

Abaixo, fotos históricas - o primeiro velo a gente nunca esquece:

Não é um cadáver, tá?

Que bom que fotografias não registram cheiros...

As fotos abaixo são de livros meus - pessoas sorridentes lidando com os velos... isso é que me dá fé!




Estas fotos são dos livros "Fiber Gathering" e "Shear Spirit": o primeiro mostra dez festivais de fibra em diferentes regiões dos EUA; o segundo mostra as dez principais fazendas de produção orgânica de fibra animal, também em diferentes regiões dos EUA. Ambos são lindíssimos, e ajudaram a alimentar minha paixão por esse universo.

Volto em breve - espero que para mostrar fotos de meu velo limpinho e penteado!