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sábado, 19 de janeiro de 2013

Salve 2013: fibra, alface, viola, rock!

Hoje é dia 19 de janeiro de 2013, o mundo não acabou, e chega de férias!

Eu sei, demorei para voltar. E agora não sei por onde começo, pois muita coisa aconteceu, fiz muitas artes (nem todas relacionadas com fibras) e são muitos assuntos para pôr em dia. Então decidi que hoje ou vai ou racha! Essa vai ser uma postagem tipo saladão, tudo misturado, só para começar a esquentar as turbinas. Depois eu vou me acertando, e lembrando de todas as coisas do período em que estive ausente.

Resolvi escrever de qualquer jeito hoje porque a noite vai ser longa. Minha filha está a caminho de um encontro de bandas de rock que acontece hoje aqui na cidade - sua primeira saída noturna para um evento público. Vou ter de ir buscá-la lá pelas tantas, e preciso ficar acordada e entretida - para não ficar fantasiando sobre catástrofes adolescentes, tetos que desabam, copos com conteúdo suspeito, sósias do Ozzy Osbourne, essas neuras. Separei meia dúzia de filmes para assistir, mas parece que isso vai ser pouco, e cá estou eu. A tarde pelo menos passou rápido - das três às seis o tempo voou enquanto eu assistia ao workshow do Zé Nazário* e John Stein Trio no Café Cultura Divina Maria.

Mas, primeiro, vamos ao dever de casa: tirei o pó da roca esses dias e finalmente comecei a fiar uma das lindezas que mostrei em postagem recente. Comecei pelo BFL, raça de carneiros muito popular entre as fiandeiras lá de fora, mas que eu ainda não havia experimentado. Ao separar as mechas para fiar ficou mais clara ainda a impressão que tive - a quantidade muito superior de crimp. Dá para ver bem nas fotos 1 e 2, abaixo:


Isso significa que esse vai ser um fio bem aerado. Optei então pela torção simples: se eu fiar vários singles e tentar torcê-los juntos vou acabar gerando um mega fio, pois depois de lavada essa lã vai encolher e afofar, certo? Aquele efeito "cabelo-de-dia-chuvoso" que já expliquei aqui. Para saber mais, use a ferramenta de busca do blog - pesquise a palavra "crimp".

Estando paradinha por um tempo, minha roca cantou como a viola do Ivan Vilela** que está aqui enchendo o ar, via um CD que pus no notebook. Pausa "para limpar canhão", como dizia meu pai: limpinha e lubrificada (foto 3), aí sim a roda girou bonito e suave, e o resultado dá para ver na foto 4. Esse fio promete: fibra deliciosa de fiar, fácil de desfiar e as cores estão ficando lindas - são ziliões de tons de verde.

Já cumpri o dever de falar de fibras têxteis, então posso agora escrever sobre outro tipo de fibra? Falei em tons de verde acima, e aí deu vontade de mostrar um projetinho que abracei durante as férias: plantar alface. O Jamie Oliver ensina como cultivar baby alfaces em casa, e resolvi tentar. Plantei mudinhas de vários tipos, tudo misturado, e deu super certo:


Mas elas crescem muito, muito rápido - e o espaço não permite isso; ótimo para quem precisa de motivação para comer salada todo dia, pois quando retiramos algumas folhinhas surge espaço para que outras brotem. 


Um mundo perfeito seria assim: salada cultivada em casa, suéter tricotado com lã sustensável, fiada na roca... mas já foi assim um dia, né?

E enquanto estou falando de produção local, aproveito para pincelar um assunto que não tem a ver com fibras, mas tem a ver com esse estilo de vida que advogo: morar em Pouso Alegre causa um efeito psicológico que não estava previsto quando vim para cá: tem por aqui um pessoal incrivelmente talentoso***. Existem muitas feras da música nesse Brasil - os Miltons, Gilbertos, Chicos, Ritas, Joyces... Mas uma coisa é eles lá e eu aqui. Em Pouso Alegre é mais complicado, porque via ACAJAL eu acabei tendo a chance de conhecer grandes talentos de perto. É humilhante, viu? No bom sentido, mas é. Como assim, bom sentido? Simples - você se sente uma pulga perto deles, mas é também um privilégio conhecê-los. Sério, gente: se for mudar para cá, faça umas aulas de canto ou aprenda a tocar nem que seja triângulo. 

Ao longo dessa postagem eu marquei com asteriscos os nomes de Ivan Vivela e Zé Nazário. O primeiro é um violeiro de Itajubá, com vários CDs gravados e autor de muitas canções - inclusive a linda "Paisagens", que eu estava ouvindo agora há pouco. E o segundo, o Zé - não reparem a intimidade, mas ele é meu vizinho, já foi meu professor e sua esposa é uma grande amiga! - é considerado um dos melhores bateristas do mundo, com direito a carreira internacional e participação no programa do Jô Soares. Humilhante. Hu-mi-lhan-te. Pois o Zé hoje se apresentou aqui na cidade com esse trio que aparece no vídeo; na verdade foi uma apresentação-workshop - eles falaram de música, deram dicas, responderam tudo o que a gente perguntou... e tocaram, claro. Enfim, nunca três horas passaram tão depressa. Queria que durasse até de madrugada, para eu esquecer que minha filha está no tal encontro de bandas de rock - oops, lembrei!

'Bora então assitir à pilha de vídeos que separei, para tentar esquecer por um tempo!

Desculpem a salada - na próxima postagem estarei de volta ao normal!

Até lá!


** Zé Nazário na Wikipedia

***Outras feras de Pouso Alegre: 
         Grupo Cantus Quatro, que tem CD produzido pelo Cláudio Nucci;
         Élder Costa, cantor, violonista e compositor que já teve canções gravadas por Milton Nascimento e Ana Carolina;
         Os meninos do Café com Jazz Trio;
         Os irmãos Sandro e Diego Nogueira, que comandam o projeto Contraponto.
     
     Também conheço gente que toca em orquestra, canta na TV, e etc.., mas já chega, né? Humilhante. E nem falei do pessoal envolvido com teatro aqui na cidade.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Dia de Comemorar!



Hoje o Falando de Fibras está comemorando
cinco mil acessos!




Eu sei que parece pouco - o mundo virtual está cheio de blogs com centenas de milhares de acessos. Mas para mim isso significa muito: eu me interessei por fibras e fiação artesanal; e, na frustração de não ter com quem compartilhar essa minha paixão, resolvi iniciar o blog em dezembro de 2011 - há apenas seis meses. Fico muito feliz por ter encontrado pessoas que lêem o que escrevo e também se interessam pelo assunto. 

Muito obrigada a todos os visitantes!

Abraço da Jane

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Das voltas que o mundo dá

Hoje é o primeiro dia do início de uma nova fase em minha vida - daí o título. Mas esta postagem também poderia se chamar "As voltas que os meus móveis dão". Percebi isso hoje quando quis fotografar algo para mostrar aqui: fui direto para a varanda dos fundos, onde há um banco de madeira... oops! Havia...

O banco veio parar no ateliê. Eu costumava fotografar meus tricôs e etc nele, pois onde ele ficava a luz é boa e as fotos saíam bacanas. Aqui no blog há muitas fotos em que o meu banco aparece. Mas, como tudo na vida é mutável, andei fazendo a dança das cadeiras aqui em casa, e não foi só com as cadeiras: esvaziei parte da sala de TV, e pus lá os móveis da sala principal que ainda estavam em meu ateliê (sim, meu ateliê ocupa a sala principal); o dito ateliê ficou mais amplo, com mais opções de arrumação...exceto por uma área que, na minha opinião, ficou vazia demais. Pensa daqui e dali, chamo minha filha atrás de casa e decido: "me ajuda a carregar esse banco lá para o ateliê!" E aí, banco desbotado + quilt colorido + almofada + tapete da Borda da Mata + baú & livros...surgiu esse cantinho:

Para complementar, minha roca - a estrela! E agora é começar a encerar o banco regularmente para ele ficar menos desbotadinho e ninguém perceber que ele passou anos em uma área externa. Assim surgiu um cantinho onde minhas alunas podem sentar, tomar um chá e folhear um livro. Nesse espaço costumavam ficar as máquinas de costura, que foram parar em outra parede bem mais simpática:

E por falar em livros... eu também precisava de um lugar para a coleção de livros do ateliê. Há tempos eu havia convertido um barzinho em bufê de chá, e esses dias tive um "plim" (= efeito de lâmpada acendendo): virei os fundos do barzinho para a frente e arrumei nele os livros:

O pufe que aparece na foto é velhíssimo, mas ganhou vida nova com a capa de patchwork. Não vou mostrar foto do "antes": ele era muito feio mesmo, acreditem!

Com mais espaço no ateliê aproveitei e ampliei o "departamento de matrículas e design": arrastei para cá uma escrivaninha bem sambada que estava sem uso em casa:

Ela também é bem feiosa... mas vou fazer uma graça nela - me aguardem! (Fazer graça = improvisar com com lixa, cola, tinta e tecidos!)

Outra coisinha em meu ateliê que anda precisando de uma renovada é uma cômoda antiga que comprei em um brechó e que abriga minha coleção de tecidos:

Ela é linda, linda... mas tá caída. É fato. As gavetas precisam de conserto e no tampo há umas manchas estranhas, mais claras, em forma de espiral. Mistério... Mas um dia a ficha caiu: são marcas de antigos repelentes para mosquitos - aqueles que a gente acendia e soltavam uma fumacinha... não vejo aquilo há uns trinta anos ou mais! Caramba, me entreguei agora... melhor mudar de assunto. Falei nisso para vocês imaginarem a idade da cômoda, mas assim vão começar a imaginar a minha idade também!

Em tempo: a máquina em cima da cômoda era de minha avó - a fofíssima e cheirosa Vovó Cotinha. Ela se foi há dezesseis anos, mas é assim que lembramos dela. Em sua homenagem, acabo de batizar o ateliê de "Baú da Cotinha":


Para o meu pai, que faleceu há dois anos, não ficar com ciúme da vovó eu decidi homenageá-lo também, e estou usando o "Rotta" - meu sobrenome de solteira e do qual ele se orgulhava bastante. Uma amiga astróloga disse que "Jane Rotta" tem nove caracteres, e que segundo a numerologia esse é um número ótimo. Não é, Elane?

Depois que a gente começa não pára mais... Antes de eu trazer a escrivaninha para o ateliê eu guardava papelada em um velho criado-mudo - que ficou sobrando e, por acaso, tinha um irmão gêmeo dando sopa em outra parte da casa. Munida de régua, lápis, serrote e cola de madeira, transformei os dois criados-mudos em uma mini cômoda de cinco gavetas:

Agora ela também precisa de uma graça, é claro. Mas essa não vai ficar no ateliê - foi designada para outro cômodo da casa.

Essa reviravolta toda tem como inspiração o Pinterest, um site viciante com imagens sobre várias áreas de interesse - inclusive decoração e um departamento que adoro: o DIY, ou Do It Yourself - "Faça Você Mesmo". Sinceramente, acho bem mais divertido - e sustentável -  reaproveitar do que comprar móveis novos. Tenho pensado muito na arquiteta que acompanhou a construção de minha casa: na época elaboramos a planta de acordo com os móveis que eu tinha e como pretendia distribuí-los. Em uma ocasião ela me disse: "e quando você for trocar os móveis?" Respondi: "quem disse que pretendo trocar meus móveis?". Bem, não troquei nenhum até hoje, mas com certeza alguns mudaram de lugar e/ou função - como o barzinho que hoje é bufê de chá + estante de livros! Mas isso foi há quase dez anos e na época eu nem sonhava que a sala principal da casa ia virar meu ateliê. Nem sonhava que eu ia trabalhar nessa área!

Agora que já fugi bastante do tópico deste blog acho que deu para entender por quê há mais de uma semana não posto nada sobre fibras e fiação, certo? Não tenho tido tempo de fiar! Mas, se vocês repararem, lá em cima na logo do blog há uma foto de uma pilha de tecidos. Eu pretendo falar de patchwork e do algodão também - apenas deixei que o interesse pela lã e pela fiação dominasse por um tempo. E isso me leva ao início desta postagem: comecei falando que fui atrás de casa fotografar algo sobre o banco que não estava mais lá, não foi? O "algo" era isso aqui:
Cortei ontem à noite: são 224 quadrados de 6 polegadas - metade em tecidos florais miúdos, metade em creminhos e branquinhos neutros - o que chamamos de "coringas". São para uma colcha que estou começando. Algum tempo atrás eu critiquei aqui no blog (nessa postagem) o esquema que impera hoje em dia no mundo do patchwork, em que designers lançam coleções lindíssimas e carésimas de tecidos coordenados - e roubam de nós a oportunidade de criar mesmo, fazer combinações próprias, inusitadas, únicas. Fica tudo pausterizado. Como mostrei acima, tenho uma cômoda cheia de tecidos e decidi fazer uma nova colcha sem comprar nada. Separei 28 sobrinhas de florais e cortei quatro quadrados de cada: total = 112, o número que eu precisava. Enfim, estou tentando criar algo único. Espero mostrar o resultado daqui a alguns dias. Por incrível que pareça, o painel com espirais que aparece em uma das fotos acima, na parede de tijolinhos, também foi feito com retalhos: eu queria usar cores outonais; separei o que tinha e usei vários marrons, vários mostardas, vários olivas, vários ferrugens... fiz com o que tinha. A idéia é essa: juntar o que se tem para criar um todo. Infelizmente, hoje vendem a idéia de que é preciso comprar novo, picotar e costurar de novo. Isso pode ser necessário quando se está aprendendo e ainda não se tem sobrinhas; mas aqui no ateliê eu me preocupo em ensinar as alunas a criar e calcular os próprios projetos e misturar muitos tecidinhos. Patchwork não tem de ser feito com tecido arrasadoramente lindo. A gente pode pegar tecidos simples e criar um design arrasadoramente lindo. Isso sim é divertido.

E ontem, enquanto cortava, pensei: e esse algodão todo? De onde vem? Como é produzido, e por quem? Há uma demanda enorme por tecidos de patchwork, mas a gente consome e não sabe a origem. Decidi pesquisar a respeito - esse é um blog sobre fibras, não é? Mas ainda estou pesquisando e esse assunto vai ficar para uma outra postagem.

Para finalizar, fica o conselho: olhe para seus móveis com outros olhos. E compre um serrote.

Abraços e até a próxima!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Das dificuldades de se manter um blog...

Há duas semanas não escrevo uma postagem, mas vou garantir: não é por falta de assunto. Tenho três ou quatro postagens prontinhas na cabeça, mas o tempo escasso e outras complicações foram aparecendo...

...tipo esta aqui:


Esta é a Tailee, e hoje de manhã cheguei à conclusão de que ela tem ciúmes do computador. Só pode ser isso.

Mas o motivo real que me manteve afastada do blog durante essas duas semanas foi um serviço extra que peguei: a tradução de um texto...não, nada sobre fibras, tricô ou carneirinhos: era jurídico, mesmo. Foi um servicinho pesado e tedioso que durou vários dias e, depois que entreguei, fiquei por algum tempo sem querer sequer ver o teclado do computador. Meus dedos não obedeciam, mesmo.

Mas aí, como estou em fase de querer tirar lições de tudo, o tal trabalho me provocou muitas reflexões. O texto era quase todo especificações para o fornecimento de equipamento industrial pesado. Peixe grande. E isso me fez pensar na complexidade das engrenagens que movem esse mundo em que vivemos: nós desfrutamos dele, e consumimos o que é oferecido a nós, mas nem de longe sonhamos com a quantidade de pessoas que trabalham para que possamos ter acesso a uma certa facilidade; ou a quantidade de dinheiro que gira em torno disso; ou que talvez um alto executivo da empresa que fabrica os tais equipamentos saia de sua casa toda manhã, rale o dia todo, e esteja infeliz, cheio desse trabalho. Mas ele faz parte de uma engrenagem que não pode parar. É um mundão, e é preciso muita gente para fazê-lo girar.

De minha parte, foi interessante lembrar que já tive emprego em indústria e minha vida era escritório o dia inteiro, contratos, manuais, reuniões... Não faz tanto tempo - onze anos. Mas deixei esse universo e hoje meu mundo é esta cidade bem menor, meu ateliê e a tela deste computador. Nostagia? Eu andava com um pouco, sim, pois é preciso abrir mão de muita coisa ao optar por uma vida como a que levo hoje. Esse serviço veio em boa hora para me ajudar a ver as coisas dentro das devidas proporções. Então, nostagia? Eu, não! Afinal, o dia está lindo; minha porta da frente, ao lado do computador, está escancarada; a Tailee está dormindo na poltrona; e minha roca está aqui do lado, esperando o próximo projeto.

Por falar em roca, estou preparando uma postagem só sobre elas. Enquanto não publico, vou pelo menos mostrar o que andei fiando nos últimos dias (he he he, para evitar lesões repetitivas, eu fiava nos intervalos da digitação...).

Lembram da minha alpaca? Ainda tenho um pouco de fibra, mas a curiosidade foi grande e fiei pelo menos o suficiente para um projetinho pequeno (fiei três vezes uns 180 metros e depois fiz o plying - resultou em um fio 3-ply, portanto). Estou fazendo uma cowl - um tipo de gola circular, bem simples, fácil de usar:


Vocês devem lembrar que algumas postagens atrás eu comparei dois tipos de processo de fiação - o worsted e o woolen; pois bem, empreguei este último na fiação da alpaca. O fio ficou muito leve e fofo, e a gola está ficando bem rústica; mas - creio que ainda seja cedo para eu afirmar isso - eu acho que prefiro o método worsted, que deixa a lã mais compactada e os pontos com uma definição melhor. Tipo assim:


Reconhecem? É a misturinha de merino e seda que mostrei algumas semanas atrás - naquele dia em que tive um ataque de bobeira e me inspirei na música do Michel Teló para escrever! Já fiei todinha, depois dividi em duas bobinas e fiz o plying; ou seja, esse é um fio 2-ply, cuja definição normalmente não é tão boa quanto a do 3-ply; mas, por causa do método utilizado, ficou melhor, sim - apesar de não tão fofinho e aerado. 

A sensação de tricotar uma amostrinha como essa e lembrar que eu mesma fabriquei o fio é incrível. O processo envolve várias etapas, e quando termino e vejo o tricô surgir sinto-me dotada com os poderes de Greiscow (é, assisti He-Man quando era criança):


Fico imaginando então como deve ser participar do processo todo MESMO - desde o carneirinho, o processamento da lã... mas eu chego lá, podem apostar.

O fato é que não tem de ter superpoderes, não: qualquer pessoa pode fazer - a sensação de autosuficiência é que nos faz sentir poderosos. E é isso que pretendemos mostrar aqui na cidade, quando o projeto de artesanato da ACAJAL começar a funcionar. Depois eu explico.

Cenas dos próximos capítulos (eu disse que tenho várias postagens prontas na cabeça, então prometo não ficar ausente por duas semanas novamente!):

- rocas;
- feltragem + ACAJAL;
- inglês (o que isso tem a ver?!);
- vídeos de fiação (já estou fazendo testes para poder publicar algo inteligível...)
- o que vou fiar em seguida? Essa coisa linda aqui - merino + seda na cor Pomegranate ("romã"):


Aff... que mais? Sim claro, vem aí o primeiro picknit (pic-nic + tricô no parque) de Pouso Alegre. Em abril.


Até a próxima!

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Por que trabalhar com as mãos?

Há tempos este vídeo me encanta; e hoje, com a ajuda dos universitários eu consegui legendá-lo; nesse processo a resolução da imagem caiu um pouquinho, mas vale a pena assistir:


Renate Hiller é co-diretora do Fiber Craft Studio e co-fundadora do Programa de Artes Aplicadas da Sunbridge College, criado em 1996. Na página inicial do site lemos:

"Hoje, mais do que nunca, o artesanato tem a missão de reconectar o ser humano com a terra e suas substâncias, trazer a cura para os sentidos e a alma, e promover a capacidade criativa do ser humano."

O que estamos esperando?       

P.S.: Dando o crédito a quem merece: o autor deste vídeo é o Chuck Smith.                                                                                                                                                         

Parece que não tem a ver...

...mas tem:

"Não há mais como contar com o crescimento da demanda de bens materiais para crescer. O crescimento pode não ser mais a opção de saída para a crise (…) Não há como viabilizar sete bilhões de pessoas com o padrão de consumo e as aspirações do mundo contemporâneo, nos limites físicos da Terra (…) O crescimento baseado na expansão do consumo de bens materiais está no seu capítulo final."

Estive falando sobre isso em uma das últimas postagens. É longo, mas todos precisamos ler. O link é para o blog do Leonardo Boff.

Bom fim de semana!

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Reflexões

Quando se mantém um blog, é comum ficar alerta a tudo, e querer compartilhar tudo. Hoje três pequenos acontecimentos - quase simultâneos - me levaram a desejar escrever.

O primeiro foi a chegada de um pacote contendo fibra de alpaca que encomendei no iniciozinho do ano. Eu nem estava contando com este pacote agora... mas hoje ele fez surpresa para mim. Alpaca é este animalzinho muito fofo que vive nas terras altas aqui da América do Sul, e nos EUA é criado a pão de ló por causa de sua fibra extremamente valorizada:


Eu já li maravilhas sobre a fibra, e querendo "ver-para-crer", encomendei. Noooossa... Minha amiga Rosie, que mora em Niterói mas é uma grande companheira de artes & experimentos, diz que certos materiais não podem ser usados de imediato - têm de passar por um "período de adoração". Essa fibra, com certeza, pertence a essa categoria:


Não dá para descrever - só tocando: fofinha, sedosa, aconchegante...dá vontade de se jogar em cima!

E aí fui para a internet pesquisar sobre a fiação da fibra de alpaca - ela é mais curta e requer um processo diferente da lã de carneiro. Pesquisa daqui e dali, achei este vídeo: um menino de uns doze ou treze anos, de fones de ouvido e camiseta de skatista, fiando, com a cara mais blasé do mundo!




Por que o espanto? Bem, digamos que fiação artesanal seja uma atividade milenar, e é um barato ver um garoto do século 21 se interessar por isso! É ou não é para a gente refletir sobre a atração que essa atividade exerce?

No meio dessa reflexão, entro no fórum da comunidade Spinning Daily e deparo-me com a seguinte postagem: uma estudante redigindo uma monografia pergunta às usuárias: "Por que vocês fiam?" Fiquei tentada a responder, e fiz isso em dez minutos - depois de refletir durante uma hora inteira! Vou tentar resumir aqui minha resposta.

Essa terra em que vivemos é produto do trabalho, esforço, pesquisa e estudo de gerações e gerações. Nós nascemos aqui e encontramos quase tudo pronto. Somos uma geração privilegiada, que tem acesso a facilidades ultra sofisticadas. E também a muitos estímulos. E na pressa de viver tudo, usufruir de tudo, estamos perdendo a capacidade de discriminação: consumimos tudo. Somos a geração do "pegue-e-pague": tudo o que precisamos, compramos (grande parte do planeta vive sob condições econômicas que não permitem essa moleza, mas aí é outra história, que usualmente preferimos ignorar).

Assim sendo, nós podemos abrir o armário em uma manhã fria e encontrar uma dúzia de suéters. Várias cores, vários modelos. Todos feitos de material sintético, fabricados na China, com mão de obra suspeita e que alimentam um esquema econômico cruel. Mas a gente não pensa - a gente compra. Afinal, estavam em liqüidação. Três por R$ 59,90. E, apesar de termos uma dúzia deles, em um momento de tédio somos capazes de achar que estão todos batidos e fora de moda, e naquele dia sairemos do trabalho, passaremos em uma liqüidação, e compraremos mais um. Ou seja, a gente tem, tem, tem, mas nunca está satisfeito. A gente tem fácil, então não valoriza.

No passado, quem queria se aquecer tinha de criar o carneiro, tosquiá-lo, processar a lã, fiar e tricotar. Se cada membro da família tivesse um suéter, maravilha. Quem fosse capaz de produzir em excesso trocava pelo algodão ou pela vaca do vizinho. Tudo era essencial e valorizado. Não dava sopa, né?

Não estou querendo dizer que temos de voltar a ser assim. Progresso é bom e eu gosto. Mas nesses tempos de "pegue-e-pague", perdemos completamente a noção de como as coisas são fabricadas, que impacto o processo de fabricação causa no ambiente, e qual o tamanho da conta que pagamos - nós e o planeta - por tudo o que consumimos. Quando aprendemos sobre o processo de fabricação de algo que consumimos, temos a chance de refletir sobre nossos hábitos de consumo. Com essa percepção, vem a valorização. E o entendimento de que é melhor ter dois suéters tricotados em casa, com lã fabricada em casa, do que dúzias de suéters de liqüidação. 

Estou longe, muito longe de viver de acordo com esse meu pensamento. Mas fiar é um começo, e uma coisa leva a outra. Estamos em 2012, mas eu nunca acreditei no fim do mundo. Acredito, sim, no fim desse estilo de vida que levamos hoje. Acredito que mudanças radicais precisarão acontecer antes que se tenha paz na terra. Acredito, principalmente, que se não mudarmos nossos hábitos de consumo o planeta já era. 

Mas não sou radical. Esses dias me perguntaram se sou vegetariana. Não, não sou. Admiro quem é, por razões espirituais. Mas não creio que temos de ser vegetarianos por questões de crueldade contra os animais. Não acho crueldade o esquema de antigamente, em que as pessoas tinham animais por uma questão de subsistência, e os comiam. Todo mundo comia só o necessário. Acho cruel o esquema das granjas de hoje:  os animais não têm o direito de usufruir de uma vida no campo, são confinados aos milhares e milhares, são entupidos de antibióticos e hormônios... para quê? Para alimentar toda a população do planeta? Resposta errada, porque milhões morrem de fome. Esse esquema existe para que poucos privilegiados possam consumir muito mais carne do que precisam, possam sentar em uma churrascaria e se empanturrar. Nessas horas penso no Tião Galinha - personagem de uma novela de uns vinte anos atrás, interpretado pelo Osmar Prado. Ele dizia: "quem tem mais  pão do que precisa, tá comendo o pão de alguém". 

Vou aproveitar para compartilhar um filminho: 


Descobri a existência desse vídeo no livro "A Itália de Jamie" (Jamie Oliver). Lá na página 210 ele faz umas colocações bem bacanas sobre essa história do consumo exagerado. No contexto da carne, mas acho que se aplica a tudo - ao que vestimos, calçamos ou comemos.

Vixi, hoje eu divaguei! 

Mas vou mais longe - lembrei da canção "Somente o necessário", do filme Mogly (Disney), e vou me despedir compartilhando o vídeo: