quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Quer experimentar?

Não é bom negócio ficar só vendo as fibras: tem de pôr a mão, tocar, sentir... as diferenças são muitas - não dá para perceber só no olho.

Quem estiver aqui pela região pode ter essa experiência: montei um cantinho especial só para isso dentro da 4ª Mostra de Patchwork de Pouso Alegre, que começou sexta passada.


A mostra acontece na Galeria Artigas, ao lado do Teatro Municipal, e está aberta ao público de segunda a sexta, do meio-dia às seis da tarde. Nesta quinta e sexta, por causa do feriado, a galeria não vai funcionar. Eu estou lá todos os dias à tarde, fazendo demonstrações de patchwork e fiação artesanal com roca de pedal e fuso de madeira. Levei diferentes tipos de fibras e fios artesanais para quem quiser conhecer.

Eu já mencionei aqui a feltragem com lã de carneiro, mas ainda não expliquei bem o que é - vou fazer isso em breve. Ando fazendo algumas experiências e estou empolgada com um teste que deu certo: a lã pode ser feltrada sobre os tecidos de algodão! Este painel em patchwork é um exemplo - a árvore foi feltrada sobre ele:


No departamento "lã", também estamos apresentando vários modelos de bolsas feltradas:


Já disse aqui que minhas fotos internas nunca ficam boas, né? Essa tá muuuuito ruinzinha. Então vá lá ver pessoalmente, conversar conosco, aprender, experimentar! Além do projeto AVE LÃ, você também vai ver muitos lindos painéis em patchwork. Alguns exemplos, só para dar água na boca:





A mostra permanece na galeria até o dia 7 de novembro e a entrada é franca. Até lá! 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Oh, o príncipe...!

Na boa: agora eu estou me achando!


O Príncipe Charles e eu temos algo em comum (eu preferia ter algo em comum com a Kate Middleton, sua norinha da foto acima, mas ele também serve): há meses eu estou por aqui fazendo meus discursos de reverência à lã, e agora descobri que o príncipe é patrono de uma campanha mundial a favor da revitalização do uso da lã natural!


Traduzindo do site:

"A Campanha Pela Lã" é uma iniciativa de indústrias diversas, convocada por Sua Alteza Real (aff!) o Príncipe de Gales em janeiro de 2010. Como sério ambientalista, o príncipe acredita que a origem natural, sustentável da lã e sua estrutura técnica podem oferecer às indústrias da moda, de interiores e da construção muitas vantagens. Escolher a lã natural - segundo o entendimento do príncipe - também ajuda a cuidar de nosso planeta. Os esforços combinados das principais organizações, associações e indústrias têxteis pelo mundo criaram uma campanha para promover as maravilhosas propriedades que a lã oferece; e, assim procedendo, ajudam a manter o setor de criação ovina e a comunidade têxtil internacionalmente."

Bacana. 

E esse pessoal promove eventos inacreditáveis! No mês passado eles comemoraram o lançamento da campanha nos Estados Unidos -  trazendo carneiros para o coração de Nova York! Os animais vieram de Rhineback, região rural onde há um festival anual de fibras que a cada edição torna-se mais popular. O evento ocupou e transformou todo o Bryant Park, em Manhattan: árvores e cadeiras foram cobertas por lã Harris Tweed em cores vibrantes, o chafariz central virou uma escultura de lã, e as pessoas circularam no meio dos carneiros; uma loja de fios local promoveu um encontro de tricoteiras e uma designer da revista Vogue Knitting exibiu um chapéu maluco e um xale tricotado à mão. Algumas fotos do evento:


No Brasil não temos uma campanha bem organizada assim, mas tenho mostrado aqui o trabalho silencioso, de formiguinha, de pessoas que têm se esforçado por oferecer a um mercado nascente produtos naturais e diferenciados - como o pessoal da La Rocca Fios e da Fazenda Caixa D'água, que citei em postagens diversas. Ou as sementinhas plantadas por Cecília e Guaracy, do Sítio Duas Cachoeiras, que se dedicam a ensinar, educar gerações futuras.  E euzinha aqui em Minas, escrevendo este blog e tentando converter pessoas para o uso da lã natural. Como parte de meus pequenos esforços, estarei a partir da quinta que vem, dia 26, fazendo demonstrações de processamento de lã, fiação artesanal e feltragem durante a 4ª Mostra de Patchwork de Pouso Alegre. O evento vai até 7 de novembro. Até lá!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Buscando na Fonte

Ajudando a divulgar: mês que vem a Cecília Camargo do Sítio Duas Cachoeiras vai oferecer dois dias de cursos naquele pedacinho do céu que já mostrei aqui. Uma forma maravilhosa de aprender fiação artesanal e tingimento vegetal. Aproveitem!


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O Milagre da Transformação

Fala a verdade: dá para acreditar que isto...


...era isto?


Continuo aqui com minhas experiências em processamento de fibras, e é muito interessante ir aprendendo e vendo as modificações que a fibra sofre - em minhas mãos, diante de meus olhos! Por que será que gosto tanto desse processo? Talvez porque nunca freqüentei o jardim de infância, nunca fiz aqueles projetos que causam uma tremenda sujeira e deixam as professoras loucas com uma dúzia de crianças de mãozinhas sujas? Deve ser.

Essa lã que estou mostrando ainda é aquela do Seu Arlindo. Aquela. Já peguei e larguei dela várias vezes, e recentemente peguei de novo por conta de ter, finalmente, comprado um par de cardas para me ajudar no processamento.



Até agora só descobri um fabricante no Brasil, elas custam absurdamente caro e são objetos simples e rústicos. O preço alto é por conta da parte com os dentes de aço - quase ninguém fabrica isso. Não vou contar quanto paguei aqui - dá até vergonha. Mas digo: custou apenas 100 reais menos do que minha roca, que é um objeto de madeira nobre, bem torneado, cheio de detalhes.

Mas enfim, tomei coragem e comprei meu parzinho no site da Selaria Dias; chegou rápido e na mão elas são até mais rústicas e feínhas do que nas fotos. Lixei e dei um trato nelas com cera de carnaúba - nada como uma maquiagem, né?

O grande problema, no entanto, foi este:


À direita está o meu merino branquíssimo, que já compro penteado, lá do Rio Grande do Sul; à esquerda está a mesma fibra depois de cardada. Ficou encardida, né? Pois é: os dentes das cardas vieram oxidados - uma coisa sutil, quase imperceptível. Meu merino foi quem denunciou!


Fiquei indignada a princípio e quis devolver o produto. A loja não criou qualquer dificuldade e declarou-se pronta a cancelar a comprar e restituir meu dinheiro. Mas aí conversei daqui, dali, perguntei, pesquisei... afinal, ainda não descobri onde comprar outro par. Acabei ficando com elas; limpei os traços de ferrugem com vinagre e uma pasta de bicarbonato de sódio e água. Saiu tudo. Mesmo assim, não deixo de lamentar que no Brasil a gente ainda tenha tão poucas opções, e que como consumidores ainda sejamos tratados com esse descuido: pelo que entendi, quase não há demanda para esse produto, ainda, e depois de fabricado ele fica "dormindo" mais tempo que a Bela Adormecida na prateleira. Por isso a oxidação. Mas e eu com isso? Paguei caro e acho que merecia ter recebido um produto pronto para o uso.

Problema resolvido, agora as cardas estão quebrando um galhão. Em minhas tentativas anteriores de fiar a lã do Seu Arlindo, eu tinha de fazer muita força para desfiar as fibras na quantidade certa. Agora depois de cardá-la, fica muuuuuuito mais fácil e até gostoso. Compare:


1. Esse é um punhado da lã antes de lavar...
2....e já lavado, pendurado para secar.
3. A lã lavada ainda tem vestígios de matéria vegetal.
4. A carda abre as fibras e remove quaisquer vestígios.
5. Rolinho pronto para fiar.

E agora é só diversão:


Esses dias vou visitar o Seu Arlindo e levar um rolinho da lã já fiada para ele ver. Quando fui buscar o velo, em janeiro, ele me olhou um tanto surpreso, provavelmente achando exquisito eu querer levar para casa aquela "coisa" - a lã que estava jogada em um galão e ele ia incinerar. Nem eu mesma tinha tanta fé naquela fibra. Mas tinha de experimentar - fazer o quê? Ossos do ofício. Em tempo: milagre algum tornaria essa fibra suave como o merino; cada lã tem seu propósito. Ela será usada para projetos utilitários - nunca um cachecol!

E nos dias 26 de outubro a 7 de novembro eu e o pessoal da ACAJAL vamos estar com exposição montada aqui em Pouso Alegre, na Galeria Artigas (ao lado do Teatro Municipal). A mostra é tradicionalmente de patchwork, mas vamos apresentar também o projeto da lã de carneiro. Quem nos visitar vai poder "ver com as mãos" e experimentar fiar no fuso e na roca - além de conhecer lindas peças feltradas. Não percam!


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Espalhando a sementinha

O "Falando de Fibras" está caminhando para um ano de existência... e ao longo dos meses eu deixei transparecer, em algumas postagens, a solidão que sentia por me dedicar a um artesanato quase perdido no tempo - e a alegria cada vez que descobria alguém, em algum lugar, que também fia e valoriza esse costume secular. Na segunda passada esse prazer de compartilhar teve seu momento de glória: fiei em público em uma exposição da qual participei e me deliciei com a reação das pessoas!

Foi durante a 1ª Semana do Turismo do Circuito Serras Verdes, do qual Pouso Alegre faz parte; houve eventos durante todo o dia no lindo prédio do antigo fórum da cidade, e o Núcleo de Artesanato da ACAJAL foi convidado a montar uma exposição para os visitantes. Levamos o patchwork - que sempre encanta, mas não foi surpresa porque já é a quarta vez que expomos na região - e o projeto AVE LÃ!, que resgata o trabalho artesanal com lã de carneiro: estavam lá nossas primeiras peças feltradas e também a roca e os fios artesanais.

Foram horas e horas cardando, fiando e conversando com os visitantes. A reação era sempre de espanto - no caso dos que nunca haviam visto uma roca - ou de encantamento ao lembrar de momentos da própria infância: muitos exclamaram imediatamente ao entrar: "Olha, uma roca, minha avó (ou mãe, ou tia) tinha uma!" Alguns não lembravam o nome do objeto. A maioria não sabe o que foi feito da roca da família....

Isso é muito triste, mas ainda temos tempo de resgatar essa arte antes que se perca. Desse evento da segunda-feira uma certeza ficou: o ser humano sempre teve e terá o poder de transformar os recursos que tem e fabricar o que precisa, e ninguém fica indiferente ao testemunhar essa transformação. Pura mágica.

Abaixo, algumas fotos da exposição:


A manta rosa em primeiro plano existe há mais de sessenta anos! Foi feita pela família da Fátima, de Santa Rita de Sapucaí (contei essa história em uma postagem duas semanas atrás), com lã de ovelha fiada, tingida e tecida artesanalmente. 

Montamos esse espaço rústico e gostoso para as demonstrações.

As bolsas feltradas chamaram a atenção mesmo penduradas entre as peças em patchwork.

Eu e Marilda, visitante da exposição.

Um close de algumas das peças feltradas. Estou devendo escrever aqui sobre feltragem, eu sei. Breve, prometo!

Esta foi uma exposição pequena, que durou apenas um dia. Mas de 26 de outubro a 07 de novembro vamos estar com uma mostra bem maior montada na Galeria Artigas. Todos os dias haverá demonstrações de patchwork e do trabalho com a lã de carneiro. Não percam!


Em tempo: reportagem no Jornal do Estado sobre o evento: http://www.jornaldoestado.net/noticias/noticia.php?id=22be9d630e7d3733a166f8136d9d064e

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Desabrochando...

Quando você trabalha em um projeto desde a fibra bruta, passando pela fiação, até chegar ao tricô, pode dizer que ele desabrochou: esse é o cachecol que fiz com a fibra que já mostrei aqui na última postagem - o merino + tencel na cor hibisco:


Eu amo, a-m-o essa cor! Ou melhor, "cores", no plural, por que não há como definí-la.

A receita é a Helix Scarf, publicada pela revista Spin-Off.Como é gratuita acho que posso traduzir aqui. Super simples:

- monte 24 pontos na agulha;
- trabalhe 1 carreira em meia;
- continue trabalhando em meia, mas:
     1) faça oito pontos, meia volta (volte para o início);
     2) faça 4 pontos, meia volta (volte para o início); 
     3) faça uma carreira completa.

Aí é só repetir até o tamanho desejado. Usei cerca de 200 metros de fio. Se estiver usando um fio mais fininho, você pode também tricotar em 30 pontos, e fazer a meia volta em 10 e 5 pontos. Receitas assim, totalmente em cordões de tricô, são ótimas para realçar fios artesanais e variações sutis de cor.

E por falar em desabrochar, dias atrás mostrei foto de minha orquídea cheia de botões. Olha só como ela está agora:


São os pequenos milagres.

Por hoje é só. Inté!