sábado, 14 de abril de 2012

Prestando contas - Parte 2

He he he, mudei de tática: para não escrever uma postagem enorme, como andei fazendo, quebrei os assuntos em mais de uma postagem hoje, já que está dando tempo. Trapaça, né?

Mas estou doida para mostrar o que fiz com a misturinha de merino + seda que mencionei algumas postagens atrás:


É muito interessante acompanhar todo o processo, da fibra à peça final. Nos EUA há sempre uma demonstração assim nos festivais de fibras - são chamadas de Sheep to Shawl, ou "Do carneiro ao Xale": com o público assistindo, eles tosquiam o carneiro, lavam e processam a lã e tricotam um xale. (Este vídeo curtinho mostra uma competição entre equipes, mas o xale, nesse exemplo, é feito em tear, e não tricotado).

Bem, eu não pude começar lá do carneiro ainda, e também não processei a lã - comprei a fibra já penteada; mas fiei e tricotei o xale:

Enquanto se tricota, o ponto rendado não aparece muito. 

Na hora de blocar, a surpresa: a renda aparece totalmente, e o xale cresce!

Depois de blocado, o xale fica leve e aerado, e drapeia bem.


Confesso que enrolei muito tempo, fugindo de um projeto como esse; mas não é tão difícil - só requer bastante atenção para seguir o gráfico. Essa receita é gratuita no Ravelry, e eu escrevi à designer, Pam Allen, pedindo autorização para publicá-la aqui, em português. Estou aguardando a resposta e decifrando aquelas siglazinhas todas usadas nas receitas. Breve.

Acaba de começar a chover aqui. Vai esfriar. Tempinho gostoso para mexer com lã!

Bom fim de semana!

Prestando contas

Algumas postagens atrás eu mostrei uma peça que havia começado a tricotar - esta aqui:


Vocês não acharam que eu ia fotografar minha versão em mim, e postar a foto ao lado da lourinha magrinha, né? Bem, o projeto deu certinho, mas o fio deixou a desejar. É uma mistura de cashmere (30%), algodão (30%), viscose de soja (30%) e seda (10%) que comprei no eBay. A gente ouve falar das novidades, mas tem de experimentar para ter a própria opinião. O trabalho ficou gostoso e leve, mas o fio desfia com facilidade e não acho que será uma peça durável. Além disso, ela foi reprovada no teste do ferro elétrico: o ferro morninho já gruda na lã. Isso confirma o que li a respeito do processamento da viscose - deve envolver muita química, mesmo. Falei sobre esse processo aqui.

Já contei em outra postagem que essa peça é de um livro da Wendy Bernard, o Custom Knits 2. Wendy está prestes a publicar o terceiro livro e é uma designer que "ensina o pulo do gato"; isso é bacana, porque te permite exercer a tal da criatividade, oras! Não que eu tenha exercido, nesse caso: segui a receita à risca. Mas ela dá uma receita e propõe mil maneiras de modificá-la, customizá-la, ensina a fazer os próprios cálculos... por isso seus livros se chamam Custom Knits. Wendy mantém um blog e também vende receitas individuais online. Se meus planos derem certo, um dia teremos esses livros publicados no Brasil, em Português!

Até mais!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Jeans + tricô

A julgar pelo título, aposto que todos pensaram em um jeans usado com um suéter bonito, né? Alguém aí pensou em um fio para tricô feito a partir de jeans reciclado? A Kollage Yarns pensou, e criou o Kollage Riveting Sport:

As cores são lindas... 


...e um novelo só dá para fazer um xale assim:


Iniciativa muito bacana. Tomara que nossos fabricantes nacionais sigam o exemplo.

Bom fim de semana!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Pequenas coisinhas irresistíveis...

Quando escrevi sobre rocas na última postagem, esqueci de mostrar esta aqui:


Prata de lei, oito dólares no eBay. Não dava para resistir, né?

E por que será que de repente os amigos começaram a me presentear com miniaturas de carneirinhos?


Não faço a menor idéia, mas estou adorando!

Inté!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Tecnologia de ponta

A união faz a força. Lembro dessa frase desde sempre, e no caso das fibras a coisa é visível: o diâmetro de uma fibrazinha de lã de carneiro de boa qualidade mede aproximadamente 18 microns (1 micron é um milésimo de milímetro). Bem frágil, né? Junte várias e elas se tornam fortes. Mas as fibras são curtas, sem continuidade... como juntar várias e fazer uma corda, por exemplo? O homem das cavernas analisou e descobriu: torção nelas!

É isso mesmo: a foto nº 1 mostra um punhado de lã penteada, com as fibras paralelas; a foto 2 mostra como um puxãozinho, pelo comprimento, fez com que as fibras se separassem; e a foto 3 mostra as mesmas fibras torcidas: não adianta puxar - não separam!

Parece bobinho, mas foi uma grande descoberta: como amarrar e arrastar um mamute abatido sem ter algo forte como uma corda? Não se sabe se o uso das fibras retorcidas veio de tão longe assim no tempo, mas é certo: há incontáveis evidências arqueológicas, de todas as regiões, de que não é de hoje que o homem retorce as fibras para facilitar a vida.

Retorce como? Com as mãos, como fiz na foto; com a ajuda de pauzinhos: uma pessoa segura de um lado, outra de outro, a fibra é amarrada nas pontas, e cada pessoa gira o pauzinho em uma direção diferente.Voilà: um cordão torcido (nós artesãs utilizamos essa técnica com freqüência). Mas é difícil obter metragens mais longas assim, e aí o danado do homem (ou foi uma mulher?) improvisou com uma pedra e um pauzinho: criou o que viria a ser o fuso. Já mostrei neste vídeo uma mulher fiando com um fuso de pau e pedra; e aqui, mostrei outra fiando com um fuso moderno.

O fuso foi um grande avanço: permite que se fie uma grande quantidade, em qualquer lugar, sentado, de pé ou andando... Tanto que até hoje ele é largamente utilizado em culturas variadas: nas terras altas da América do Sul, na Turquia, no Tibete, nos Estados Unidos. Podem ser super simples ou elaboradamente lindos:
1. Fuso Navajo, grandão, precisa ser apoiado no chão;
2. Fuso atual, belamente trabalhado;
3. Fuso improvisado com um palito e um CD (funciona!);
4.   Jogo de fusos fabricado pelo "Seu João Cabelo", aqui em Pouso Alegre;

Os fusos estão por aí faz tempo - como mostra esta ilustração do antigo Egito:

Quando comecei a me interessar por fiação artesanal, só conhecia a palavra "spindle": não sabia o nome em português. Descobri um tempinho depois, graças a um site de Portugal. E aí foi aquela confusão: na minha cabeça, fuso era alguma coisa onde a Bela Adormecida espetou o dedo; achava que era uma agulha ou algo assim. Pesquisando mais, descobri que na verdade os fusos eram parte das primeiras rocas; eram de madeira e tinham uma ponta bem afiada (dá para localizar facilmente na foto):

E era nelas que eu queria chegar - nas rocas: hoje são vistas como antigüidade (apesar de serem usadas cotidianamente em muitas comunidades), mas já foram consideradas um tremendo avanço tecnológico! Há registros históricos de sua existência em todas as culturas - o mais antigo datando de 1237 (o que não significa que já não havia rocas antes disso)!

Fotos 1 e 2: ilustrações chinesas. O objeto redondo no centro da segunda ilustração é uma roca milenar!
Foto 3: sim, é o Ghandi fiando! A roca foi uma grande aliada em sua luta para tornar os indianos menos dependentes da Grã-Bretanha.

Imagine: alguém inventa um equipamento que gira, coloca torção na fibra e já vai enrolando o fio fabricado na bobina...!

Mas não foi tão rápido assim: como pode ser observado pelas fotos acima, as rocas passaram por muitas mudanças e melhorias ao longo dos séculos. A roca do palácio da Bela Adormecida provavelmente era uma walking wheel - ou "roca de caminhar": ainda não havia sido inventado um sistema para enrolar o fio à medida em que era fabricado: a fiandeira tinha de ir girando a roda com a mão, fiando e se distanciando da roca - daí o nome; quando tinha uma boa quantidade de fio, ia enrolando manualmente em um carretel e se aproximando da roca. Depois começava tudo de novo: fiando e se distanciando, enrolando e se aproximando... talvez uma dessas resolvesse meu eterno problema de ter preguiça de caminhar!

Lá pelo século XVI vieram as inovações que permanecem até hoje: uma é a invenção do flyer - uma peça onde é engatada uma bobina; ela gira junto com a roda principal, e faz com que o fio recém-formado seja enrolado na bobina ao mesmo tempo em que a torção é aplicada à fibra. A outra é a introdução do pedal - não era mais necessário girar a roda com a mão: dava para fiar mais rápido e com mais eficiência.

As rocas fabricadas hoje - acreditem, há muitos fabricantes nos EUA, Europa e Austrália, mas já falei disso aqui - são modernosas, coloridas, dobráveis, estilosas... mas na essência, o mecanismo é o mesmo de séculos atrás.

Curiosamente, a fiação artesanal exerce um apelo forte sobre um grande número de pessoas hoje em dia: há comunidades virtuais, seminários, workshops, festivais, campeonatos...E, mais curioso ainda: se no passado a atividade era vista como trabalho árduo relegado às mulheres (imagine ter de fiar o suficiente para produzir fios e tecer roupas para uma família inteira!), hoje fiar é hobby e os homens estão aderindo também. Vejam só apenas dois exemplos interessantes:

Vincent D'Aguanno é dono de uma loja de suprimentos para tricô e fiação nos EUA; em setembro último ele organizou um evento para angariar fundos para a campanha de prevenção do câncer de mama: uma maratona de fiação. O cara fiou durante 32 horas d-i-r-e-t-o, e o produto final foi rifado em prol da campanha. O total arrecado foi de US$ 3.817,00.

Ron Bloom é engenheiro aposentado e fã de futebol. Um dia levou a mulher, que adora tricotar, a um festival de fibras realizado em uma cidade mais ou menos próxima. Nunca tinha se interessado por esse universo, e foi apenas como motorista. Chegando lá, assistiu a uma demostração de fiação artesanal em um dos estandes, e caiu de amores à primeira vista. Voltou para casa, improvisou um fuso a partir de um CD, aprendeu, aperfeiçoou, comprou uma roca... e hoje fabrica todos os fios que sua mulher tricota. No sofá da sala, assitindo ao futebol em seu apartamento no 22º andar de um edifício em Manhattan.


Eu também caí de amores por esse universo - nem sei como ainda. Nunca fui a esses festivais, nunca tinha visto uma roca "em pessoa" até comprar a minha, nunca vi ninguém fiando...Só sei que fiar é mágico, meditativo, relaxante. E que todo mundo devia experimentar.

Quem foi mesmo que havia prometido postagens mais curtas? Eu, não!

Atá a próxima!

quinta-feira, 29 de março de 2012

Alhos & Bugalhos

Já, já eu explico o título.

Seria ótimo se, a cada vez que tivesse uma idéia ou desejasse compartilhar algo aqui, eu tivesse disponibilidade para sentar, escrever e publicar. Uma postagem rapidinha, simples. Haveria postagens todo dia, eu garanto. Mas ainda estou adquirindo prática nas rapidinhas (refiro-me às postagens, tá?) e enquanto isso acabo mesmo acumulando várias pequenos assuntos e escrevendo postagens longas. Então vamos lá - hoje vou até numerar os assuntos:

1) Terminei de tricotar a peça com o fio merino + seda fiado em casa. Demorei para escolher uma receita, mas acabei optando por uma bem simples (receita do Ravelry, gratuita) porque o fio já faz o show sozinho. Fiz esse mini-xale/lenço de pescoço:

2) Desmanchei a gola que tinha tricotado com a alpaca fiada em casa - mostrei na última postagem, lembram? Motivo: a alpaca não tem crimp. Expliquei o que é isso aqui, mas só para relembrar: crimp é o que dá elasticidade às fibras animais. Sem crimp, o fio pronto tem zero elasticidade, e a peça tricotada pode "crescer" e deformar com facilidade. Desmanchei, e escolhi outra receita; novamente, optei pelo simples: fiz outra gola sem costura em agulha circular, mas desta vez escolhi um ponto já elástico - uma sanfona rendada que utilizei também nesta peça (atenção: para tricotar essa receita em agulha circular, sem costura, é preciso modificar as carreiras pares: onde é meia faça tricô,onde é tricô faça meia). Desta vez o resultado foi legal:
Vivendo e aprendendo, né? Mas para aprender a gente tem de estar disposto a errar, desmanchar, refazer, arriscar.

3) Comecei a fiar a misturinha de merino + seda que mostrei na última postagem - em outra cor. Está ficando assim:

4) A editora Interweave, que publica a revista Spin-Off - sobre fiação artesanal - disponibiliza as publicações também em CDs. Como só me tornei assinante em 2011, encomendei, toda boba, o CD com as quatro edições de 2010:

A revista é muito informativa, super didática e aprendo muito com uma única edição.  Um CD com quatro edições seria o paraíso, né? Não quando tem algo em seu DNA que te impede de apreciar a leitura na tela do computador. Muito curioso, isso: eu uso o computador de montão, mas na hora de ler, não rola: bom mesmo é me esparramar na poltrona, em qualquer posição, com a revista na mão. Mas estou tentando. Providenciei até esse trem aqui, para pôr o notebook:

Ontem à noite li metade de uma edição na cama, com esse bandejão no colo. Mas não tem jeito: para pegar no sono, precisei pôr o notebook de lado e ler um livro, mesmo! Aí, depois de uma ou duas páginas, bojei.

5) O livro era esse aqui

Life lists são aqueles listões em moda hoje em dia - tipo "1000 discos para ouvir antes de morrer". O livro apresenta diversas listas de coisas que uma tricoteira deve aprender ou fazer antes de morrer. É uma proposta muito interessante porque a gente tende a se acomodar em um nicho de conforto, e fica fazendo sempre o que já sabe. A autora cutuca, provoca, aguça a curiosidade e a gente acaba aceitando os desafios. Por exemplo, eu sempre fugi de uma técnica chamada provisional cast-on - "montagem provisória dos pontos": é um jeito de montar os pontos que permite, no final, que você desfaça a montagem, pegue novamente os pontos e saia tricotando na outra direção. O livro provocou e eu resolvi experimentar um projeto com essa técnica - comecei ontem essa peça:

Mas ainda estou no comecinho: a peça não é minha, e não sou a moça da foto, infelizmente. É uma peça do livro Custom Knits 2, da Wendy Bernard (outra cutucadora que não dá só receita prontinha: ensina e faz a gente querer customizar as peças).

Mas voltando ao livro que estava lendo ontem à noite: estou em um capítulo que fala dos museus que uma tricoteira deve visitar. Tudo logo ali na esquina, como o Shetland Museum. As ilhas Shetland ficam ao leste da Escócia, beeeeem ao norte:

Não disse que era logo ali? Por causa do isolamento, as ilhas preservaram uma raça de carneiros - do mesmo nome - extremamente primitva e pura, cuja lã é muito valorizada. O museu conta a história da raça e da evolução das técnicas têxteis ao longo dos séculos. 

Enquanto não tenho condições de visitar esses lugares (condições essas que, tudo indica, não virão antes do término da presente encarnação), vou curtindo os livros (não é bacana saber do que existe aí pelo mundão afora?) e tirando casquinha dos mimos que recebo de pessoas que viajam e lembram de mim. Ontem ganhei este dedal de porcelana de uma aluna que esteve em Paris:

E minha irmã trouxe do Uruguai esta lã puríssima, artesanal:

Se alguém aí for às ilhas Shetland, eu aceito um velo de carneiro!

Bom, depois de todos esses assuntos, acho que está explicado o título da postagem, né? Mas eu prometo, mesmo, que não vou mais deixar que os assuntos se acumulem assim!

Palavra de tricoteira (e fiandeira).

Até a próxima!