quarta-feira, 19 de junho de 2013

Nota 100!

100% carneiro
100% natural
100% feito à mão - fiado em roca de pedal e tricotado em casa.

Toda vez que termino de preparar um fio artesanal, demoro o triplo do tempo para decidir em que receita utilizá-lo; e toda vez chego à mesma conclusão: menos é mais! Acabo escolhendo uma peça muito simples - justamente para valorizar a beleza do fio. Dessa vez não foi diferente:




Fiz um cachecol circular duplo - conhecidos como "Infinity Scarves". Todo em ponto meia e tricô. Simples assim. Mas graças ao fio a peça ficou super macia e deliciosa de usar, quentinha de verdade. Agora há pouco fui atrás de casa fotografá-la e já deu vontade de sair usando, já que a temperatura despencou aqui no Sul de Minas de ontem para hoje.

O fio é um two-ply: dois singles retorcidos juntos; a espessura ficou entre 3 e 4, e essa irregularidade é o charme dos fios artesanais. A fibra original - lã de carneiro das ilhas Falkland - era essa coisa linda:


E escrevi mais sobre ela aqui e aqui.

Por hoje é só. Até a próxima!

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Fazendo Mágica com Lã - II

Na última postagem eu mostrei a forma milagrosa como a blocagem salva até mesmo a peça que parece ter saído mais desastrosamente errado. Desde então, algumas pessoas me escreveram com dúvidas, e aqui vão mais algumas informações sobre o assunto - além de outro exemplo dessa mágica.

As principais dúvidas das pessoas que me escreveram foram: 1) a peça de lã bóia quando mergulhada na água e 2) a peça sai da água enooooooorme, totalmente disforme e aparentemente perdida.

Respondendo uma coisa de cada vez:

A peça de lã bóia, sim, quando a mergulhamos na água; a lã possui propriedades que repelem líquido, e por isso dizem que ela é perfeita quando está nevando: um simples gorrinho de lã proteje a cabeça não só do frio como também da umidade. Da mesma forma; pescadores nórdicos enfiam o pé na água de meia e bota, e afirmam que o pé continua quentinho. Isso na Noruega, na Dinamarca, na Irlanda, na Escócia, na Islândia e outros lugares "fresquinhos"... Por isso, ao mergulhar uma peça de lã é preciso ir apertando suavemente, empurrando para dentro da água e deixando que ela absorva o líquido devagar.

E sim... ao retirá-la da água ela vai estar mesmo molenga e enorme! A impressão que se tem é que está tudo perdido... a fibra da lã é super elástica e expande para valer ao absorver a água.

Mas nada de desespero: primeiro é preciso espremer o excesso de água, depois espremer de novo, delicadamente, dentro de uma toalha bem felpuda. O excesso de água será removido e a peça estará pronta para ser arranjada em uma placa de isopor. Isso é chato, viu? Bem chato. Tem de ter paciência e ir moldando a peça nas medidas planejadas. Tem de alisar bem toda a superfície com as mãos, de forma a tornar os pontos homogêneos. No início desse processo a gente acha que não vai conseguir.

A peça abaixo - a que bloquei mais recentemente - foi tricotada tendo em mente uma medida de busto de 42 polegadas. Quando comecei a arranjá-la na placa, após molhar, a medida do busto era de... 46 polegadas! Quatro polegadas a mais - ou seja, cerca de 10 cm de diferença. Mas no final deu tudo certo, e a aparência do tricô melhorou 100%. Acompanhe:

Suéter ainda nas agulhas; a lã não era uma "brastemp" e não prometia grande coisa...

Suéter pronto: superfície irregular, pontos indefinidos, falta de caimento;

Suéter retirado da água: pontos enooooormes, tudo largão... será que tem jeito?

Peça ainda molhada, mas já arranjada cuidadosamente nas medidas desejadas; agora é só esperar que seque.

Suéter blocado: pontos mais definidos, superfície homogênea, belo drapeado e, principalmente: tamanho certinho!

Que alívio, né?

Outra dúvida que me enviaram foi: fiz tudo direito e a peça não blocou. Bem, nesses casos minha única sugestão é: verifique a composição de seu fio. Fios sintéticos não blocam. Algodão também não; uma peça tricotada em algodão pode ser passada a ferro para melhorar a aparência da superfície, mas o tamanho só vai aumentar mais. Só com a lã natural é possível esse milagre.

Abaixo, mais mágica.  Até a próxima!




Receitas e fios:

Suéter Indigo:
   - a receita é Margot, de Linden Down, gratuita;
   - o fio é o Virgin Wool Deluxe da Ice Yarns.

Colete bordô:
   - Badlands, de Sara Gresbach, à venda no Ravelry;
   - o fio é o 100purewool worsted 3 ply.

Colete vermelho:
   - Mondo Cable Vest, de Bonnie Marie Burns, à venda no Ravelry;
   - o fio é o Queensland Collection Super Aussie.

Cachecol verde:
   - My first lace scarf, publicada no livro "Warn Knits,Cool Gifts" de Sally & Caddy Melville;
   - o fio é o maravilho e infelizmente descontinuado Camelino, da Knit One Crochet Two. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

Fazendo mágica com lã

Eu nunca deixo de me espantar com as propriedades da lã. Dá para acreditar que as fotos abaixo mostram a mesma peça tricotada**, ANTES e DEPOIS da blocagem?

 ANTES


DEPOIS

Entre muitas outras características que já citei aqui em inúmeras postagens, a lã tem a capacidade de redistribuição e acomodação das fibras - o que chamamos de resiliência. Se uma peça feita de lã alargar com o uso, por exemplo, ela pode ser molhada e blocada novamente, e voltará ao tamanho original.

Mas o que é blocagem? Blocar é molhar a peça pronta, acomodá-lá em uma superfície plana e deixá-la secar. Só isso. Mas faz milagres, como mostra o exemplo acima.

Vou confessar: quase desmanchei a peça todinha antes de arrematar, pois aparentemente estava tudo errado: ficou curta demais e larga demais para mim; e, graças ao angorá* presente na composição do fio, também estava parecendo algo que meus gatos tivessem usado para dormir em cima. Mas, como a lã já me surpreendeu em muitas outras ocasiões, resolvi ir adiante - arrematar e blocar a peça.

É possível blocar a lã com o vapor do ferro ou borrifando água na peça, mas eu prefiro mergulhá-la logo; uso água com um pouquinho de amaciante, depois espremo bem dentro de uma toalha e então arrumo cuidadosamente em uma placa de isopor, prestando atenção às medidas finais que quero alcançar:


Como o tricô é bem elástico, procurei ganhar medidas no comprimento, e compactei bastante os pontos lateralmente para diminuir a largura da peça. Aí foi só deixar secar e, mais uma vez, a surpresa: ponto para a lã - a peça ficou perfeita!

Em alguns casos, é preciso alfinetar a peça na placa de isopor - principalmente em se tratando de xales trabalhados em pontos rendados. Já mostrei esta peça em outra ocasião, mas vou mostrar de novo:


1.   Peça ainda nas agulhas - não dá para ver o efeito da renda direito;
2.   Xale pronto - molhado, esticado e alfinetado na placa de isopor;
3.   Xale após blocagem - os pontos estão bem abertos, 
a renda aparece bem e a peça tem um belo drapeado!

*Importante: só é possível blocar peças feitas em lã, ou misturas contendo uma boa porcentagem de lã. O fio rosé do xale acima é uma mistura de 50% merino e 50% seda, fiado em casa na roca de pedal; o fio verde uitlizado na peça do alto é o extinto Oxford da Aslan Trends, contendo 60% de lã merino e 40% de fibra de angorá. Não entendo porque a Aslan descontinuou esse fio... é simplesmente o melhor nacional que já usei, e não há nada semelhante no mercado nacional. Ainda ontem recebi e-mail do fabricante divulgando seus lançamentos desse ano - tudo sintéticos! 

** A peça mostrada é uma adaptação da Peasy, de Heidi Kirrmaier; receita à venda no Ravelry. (adaptação porque eu não tinha fio suficiente para as mangas compridas...)

E aí? Vendo essas fotos e aprendendo sobre as qualidades da lã, dá vontade de continuar usando fios acrílicos? Pense nisso!

Até a próxima!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Notícias do Front

Tá frio. Muuuuuuito frio aqui no Sul de Minas! Começou bem cedo esse ano, e aí dá vontade de parar tudo e só mexer com as fibras. Pena que o tempo anda escasso - tanto para escrever no blog quanto para me jogar nas experiências e pesquisas... ah, o tempo, sempre o tempo...!

Mesmo assim, tenho alguma coisa para mostrar, sim. Vamos lá:

Lembram dos dois últimos pacotes com fibras para fiar que mostrei algumas postagens atrás? Esse semana terminei de fiar a Falkland, e o resultado foi muito bom:



Falkland é uma raça nobre de carneiros, e eles vivem nas ilhas de... Falkland! Sim, aquelas que geraram conflitos uns anos atrás entre a Argentina e a Inglaterra. A lã de Falkland é considerada uma das mais "verdes" do mundo - no sentido da sustentabilidade e da produção orgânica. Durante 160 anos foi a principal atividade econômica das ilhas - hoje a pesca está em primeiro lugar, mas os carneirinhos continuam sendo muito importantes.

A lã é muuuuito leve e aerada, e gerou um fio ultra fofinho! Por conta das fibras mais curtas, não foi tão fácil de fiar, mas o preço e o resultado valeram a pena: fiei o single e depois torci dois fios juntos, gerando um cordão duplo; a princípio pareceu meio sem graça, mas depois de lavado...o fio simplesmente floresceu, afofou, ficou gostoso demais! E se comportou muito bem na amostra acima, com boa definição dos pontos. Agora sou a feliz possuidora de 270 metros de fio puro, e ainda não sei o que vou tricotar com ele... ô, responsabilidade! 

Enquanto vou fiando minhas lãs, permaneço de olho no mercado, que anda caidinho mas às vezes tem surpresas muito boas. Em matéria de fios, o ano está fraquíssimo: não tenho um único lançamento nacional, dos grandes fabricantes, que valha a pena mostrar e recomendar aqui; as indústrias continuam ignorando as artesãs de verdade, continuam desprezando a tendência mundial que favorece as fibras naturais; até agora não foi lançado este ano qualquer produto dentro desse padrão; continuamos sendo brindadas com os sintéticos e afrescalhados fios impróprios para trabalhos de qualidade. Curioso é que os fios deste tipo lançados no ano passado estão nos saldões das grandes lojas... o que mostra que não foram bem aceitos. Fabricantes, acordem!!!


Exemplos de fios em liquidação no Bazar Horizonte
Reparem na queda vertiginosa dos preços...

Ainda bem que o mesmo Bazar Horizonte tem também uma seção de "naturais"; são, na maioria, fios importados, um pouco caros, mas ficam como opção para termos algum acesso às fibras puras. O único produto nacional é o da Fazenda Caixa D'Água, que já mostrei em diversas ocasiões aqui no blog.

E a surpresa boa deste ano também veio da Fazenda Caixa D'Água: eles agora estão vendendo fusos de madeira e encorajando as artesãs a fiar sua própria lã!
Eu aprendi a fiar com um fuso semelhante; na época, não encontrei à venda em lugar nenhum do Brasil, e um torneador aqui da cidade fez um para mim, com base em fotografias que achei na internet. E até hoje o utilizo para ensinar outras pessoas - depois fica mais fácil aprender na roca. Para quem não sabe o que é nem de onde veio, esse artigo, da própria Fazenda Caixa D'Água, é bem informativo:

http://caixadagua.com/blog/?p=665

No youtube você também encontra muitos vídeos mostrando como se fia com um fuso. Faça a busca em inglês: "Spindle Spinning". 

Mas se você só aprende se tiver um professor "ao vivo", fique de olho: vem aí o segundo picknit de Pouso Alegre - a data ainda vai ser marcada, mas deve ser em um sábado ainda no mês de maio. Trata-se de um piquenique para tricotar no parque florestal, e nessas ocasiões eu levo também fibras, fusos e até a roca para quem desejar aprender. Leia aqui sobre o primeiro "picknit".

Por hoje é só. Até a próxima!

domingo, 24 de março de 2013

Ele também fiava!

E como fiava... fiava tanto que, nos últimos anos de sua vida, recebia pessoas, concedia entrevistas e fazia tudo o mais enquanto fiava. Sua roda de fiar, na Índia chamada de charka - esteve com ele até o último dia de sua vida.



Estou falando de Ghandi. Ontem assisti ao monólogo sobre ele, com o ator João Signorelli, que se apresentou aqui em Pouso Alegre. Quando entrei no teatro, antes do início do espetáculo, a primeira coisa que vi foi a roca que fazia parte do cenário:


Em um trecho da peça, "Ghandi" explica: quando a Índia era colônia britânica, havia uma lei que determinava que todo o algodão produzido seria enviado para a Inglaterra, transformado em tecido e revendido para os indianos... a preços abusivos. Essa é uma sacanagem que a Inglaterra aprontou muito, e já falei disso em uma postagem que conta sobre o início do patchwork nas colônias americanas (clique aqui para ler).

Para protestar, Ghandi desafiou a lei, começou a fiar seu próprio algodão e exertou os indianos a fiar e tecer suas próprias roupas. Isso foi em 1918, e esse movimento pacífico acabou dando origem à Khadi - a industria indiana de tecidos artesanais que existe até hoje e emprega cerca de 1.6 milhões de mulheres. Graças a ela, Ghandi pôde conectar-se com as pessoas e divulgar sua mensagem de independência industriosa. 

Cá entre nós, por maior que fosse seu desprendimento e vontade de produzir, acho que Ghandi na verdade fiava para unir o útil ao agradável: fiar é meditativo, a gente fica zen, mesmo! Quando começo é difícil parar, e o bem estar mental é muito grande.

O fato é que, graças a ele, a roca tornou-se símbolo de auto-suficiência e hoje está na bandeira da Índia.


Leia mais sobre Ghandi e a independência da Índia na Wikipedia.

Até a próxima!

quarta-feira, 20 de março de 2013

Festa Surpresa!

Acessei o blog hoje, distraída, e dei com o número: 10.000 acessos! Não andava prestando atenção à quantidade de acessos ultimamente e foi uma agradável surpresa!

Agradeço a todos que nesse pouco mais de um ano demonstraram interesse pelo que escrevo, perguntaram, sugeriram, comentaram e, assim, tornaram meu trabalho mais prazeroso!