segunda-feira, 2 de abril de 2012

Tecnologia de ponta

A união faz a força. Lembro dessa frase desde sempre, e no caso das fibras a coisa é visível: o diâmetro de uma fibrazinha de lã de carneiro de boa qualidade mede aproximadamente 18 microns (1 micron é um milésimo de milímetro). Bem frágil, né? Junte várias e elas se tornam fortes. Mas as fibras são curtas, sem continuidade... como juntar várias e fazer uma corda, por exemplo? O homem das cavernas analisou e descobriu: torção nelas!

É isso mesmo: a foto nº 1 mostra um punhado de lã penteada, com as fibras paralelas; a foto 2 mostra como um puxãozinho, pelo comprimento, fez com que as fibras se separassem; e a foto 3 mostra as mesmas fibras torcidas: não adianta puxar - não separam!

Parece bobinho, mas foi uma grande descoberta: como amarrar e arrastar um mamute abatido sem ter algo forte como uma corda? Não se sabe se o uso das fibras retorcidas veio de tão longe assim no tempo, mas é certo: há incontáveis evidências arqueológicas, de todas as regiões, de que não é de hoje que o homem retorce as fibras para facilitar a vida.

Retorce como? Com as mãos, como fiz na foto; com a ajuda de pauzinhos: uma pessoa segura de um lado, outra de outro, a fibra é amarrada nas pontas, e cada pessoa gira o pauzinho em uma direção diferente.Voilà: um cordão torcido (nós artesãs utilizamos essa técnica com freqüência). Mas é difícil obter metragens mais longas assim, e aí o danado do homem (ou foi uma mulher?) improvisou com uma pedra e um pauzinho: criou o que viria a ser o fuso. Já mostrei neste vídeo uma mulher fiando com um fuso de pau e pedra; e aqui, mostrei outra fiando com um fuso moderno.

O fuso foi um grande avanço: permite que se fie uma grande quantidade, em qualquer lugar, sentado, de pé ou andando... Tanto que até hoje ele é largamente utilizado em culturas variadas: nas terras altas da América do Sul, na Turquia, no Tibete, nos Estados Unidos. Podem ser super simples ou elaboradamente lindos:
1. Fuso Navajo, grandão, precisa ser apoiado no chão;
2. Fuso atual, belamente trabalhado;
3. Fuso improvisado com um palito e um CD (funciona!);
4.   Jogo de fusos fabricado pelo "Seu João Cabelo", aqui em Pouso Alegre;

Os fusos estão por aí faz tempo - como mostra esta ilustração do antigo Egito:

Quando comecei a me interessar por fiação artesanal, só conhecia a palavra "spindle": não sabia o nome em português. Descobri um tempinho depois, graças a um site de Portugal. E aí foi aquela confusão: na minha cabeça, fuso era alguma coisa onde a Bela Adormecida espetou o dedo; achava que era uma agulha ou algo assim. Pesquisando mais, descobri que na verdade os fusos eram parte das primeiras rocas; eram de madeira e tinham uma ponta bem afiada (dá para localizar facilmente na foto):

E era nelas que eu queria chegar - nas rocas: hoje são vistas como antigüidade (apesar de serem usadas cotidianamente em muitas comunidades), mas já foram consideradas um tremendo avanço tecnológico! Há registros históricos de sua existência em todas as culturas - o mais antigo datando de 1237 (o que não significa que já não havia rocas antes disso)!

Fotos 1 e 2: ilustrações chinesas. O objeto redondo no centro da segunda ilustração é uma roca milenar!
Foto 3: sim, é o Ghandi fiando! A roca foi uma grande aliada em sua luta para tornar os indianos menos dependentes da Grã-Bretanha.

Imagine: alguém inventa um equipamento que gira, coloca torção na fibra e já vai enrolando o fio fabricado na bobina...!

Mas não foi tão rápido assim: como pode ser observado pelas fotos acima, as rocas passaram por muitas mudanças e melhorias ao longo dos séculos. A roca do palácio da Bela Adormecida provavelmente era uma walking wheel - ou "roca de caminhar": ainda não havia sido inventado um sistema para enrolar o fio à medida em que era fabricado: a fiandeira tinha de ir girando a roda com a mão, fiando e se distanciando da roca - daí o nome; quando tinha uma boa quantidade de fio, ia enrolando manualmente em um carretel e se aproximando da roca. Depois começava tudo de novo: fiando e se distanciando, enrolando e se aproximando... talvez uma dessas resolvesse meu eterno problema de ter preguiça de caminhar!

Lá pelo século XVI vieram as inovações que permanecem até hoje: uma é a invenção do flyer - uma peça onde é engatada uma bobina; ela gira junto com a roda principal, e faz com que o fio recém-formado seja enrolado na bobina ao mesmo tempo em que a torção é aplicada à fibra. A outra é a introdução do pedal - não era mais necessário girar a roda com a mão: dava para fiar mais rápido e com mais eficiência.

As rocas fabricadas hoje - acreditem, há muitos fabricantes nos EUA, Europa e Austrália, mas já falei disso aqui - são modernosas, coloridas, dobráveis, estilosas... mas na essência, o mecanismo é o mesmo de séculos atrás.

Curiosamente, a fiação artesanal exerce um apelo forte sobre um grande número de pessoas hoje em dia: há comunidades virtuais, seminários, workshops, festivais, campeonatos...E, mais curioso ainda: se no passado a atividade era vista como trabalho árduo relegado às mulheres (imagine ter de fiar o suficiente para produzir fios e tecer roupas para uma família inteira!), hoje fiar é hobby e os homens estão aderindo também. Vejam só apenas dois exemplos interessantes:

Vincent D'Aguanno é dono de uma loja de suprimentos para tricô e fiação nos EUA; em setembro último ele organizou um evento para angariar fundos para a campanha de prevenção do câncer de mama: uma maratona de fiação. O cara fiou durante 32 horas d-i-r-e-t-o, e o produto final foi rifado em prol da campanha. O total arrecado foi de US$ 3.817,00.

Ron Bloom é engenheiro aposentado e fã de futebol. Um dia levou a mulher, que adora tricotar, a um festival de fibras realizado em uma cidade mais ou menos próxima. Nunca tinha se interessado por esse universo, e foi apenas como motorista. Chegando lá, assistiu a uma demostração de fiação artesanal em um dos estandes, e caiu de amores à primeira vista. Voltou para casa, improvisou um fuso a partir de um CD, aprendeu, aperfeiçoou, comprou uma roca... e hoje fabrica todos os fios que sua mulher tricota. No sofá da sala, assitindo ao futebol em seu apartamento no 22º andar de um edifício em Manhattan.


Eu também caí de amores por esse universo - nem sei como ainda. Nunca fui a esses festivais, nunca tinha visto uma roca "em pessoa" até comprar a minha, nunca vi ninguém fiando...Só sei que fiar é mágico, meditativo, relaxante. E que todo mundo devia experimentar.

Quem foi mesmo que havia prometido postagens mais curtas? Eu, não!

Atá a próxima!

quinta-feira, 29 de março de 2012

Alhos & Bugalhos

Já, já eu explico o título.

Seria ótimo se, a cada vez que tivesse uma idéia ou desejasse compartilhar algo aqui, eu tivesse disponibilidade para sentar, escrever e publicar. Uma postagem rapidinha, simples. Haveria postagens todo dia, eu garanto. Mas ainda estou adquirindo prática nas rapidinhas (refiro-me às postagens, tá?) e enquanto isso acabo mesmo acumulando várias pequenos assuntos e escrevendo postagens longas. Então vamos lá - hoje vou até numerar os assuntos:

1) Terminei de tricotar a peça com o fio merino + seda fiado em casa. Demorei para escolher uma receita, mas acabei optando por uma bem simples (receita do Ravelry, gratuita) porque o fio já faz o show sozinho. Fiz esse mini-xale/lenço de pescoço:

2) Desmanchei a gola que tinha tricotado com a alpaca fiada em casa - mostrei na última postagem, lembram? Motivo: a alpaca não tem crimp. Expliquei o que é isso aqui, mas só para relembrar: crimp é o que dá elasticidade às fibras animais. Sem crimp, o fio pronto tem zero elasticidade, e a peça tricotada pode "crescer" e deformar com facilidade. Desmanchei, e escolhi outra receita; novamente, optei pelo simples: fiz outra gola sem costura em agulha circular, mas desta vez escolhi um ponto já elástico - uma sanfona rendada que utilizei também nesta peça (atenção: para tricotar essa receita em agulha circular, sem costura, é preciso modificar as carreiras pares: onde é meia faça tricô,onde é tricô faça meia). Desta vez o resultado foi legal:
Vivendo e aprendendo, né? Mas para aprender a gente tem de estar disposto a errar, desmanchar, refazer, arriscar.

3) Comecei a fiar a misturinha de merino + seda que mostrei na última postagem - em outra cor. Está ficando assim:

4) A editora Interweave, que publica a revista Spin-Off - sobre fiação artesanal - disponibiliza as publicações também em CDs. Como só me tornei assinante em 2011, encomendei, toda boba, o CD com as quatro edições de 2010:

A revista é muito informativa, super didática e aprendo muito com uma única edição.  Um CD com quatro edições seria o paraíso, né? Não quando tem algo em seu DNA que te impede de apreciar a leitura na tela do computador. Muito curioso, isso: eu uso o computador de montão, mas na hora de ler, não rola: bom mesmo é me esparramar na poltrona, em qualquer posição, com a revista na mão. Mas estou tentando. Providenciei até esse trem aqui, para pôr o notebook:

Ontem à noite li metade de uma edição na cama, com esse bandejão no colo. Mas não tem jeito: para pegar no sono, precisei pôr o notebook de lado e ler um livro, mesmo! Aí, depois de uma ou duas páginas, bojei.

5) O livro era esse aqui

Life lists são aqueles listões em moda hoje em dia - tipo "1000 discos para ouvir antes de morrer". O livro apresenta diversas listas de coisas que uma tricoteira deve aprender ou fazer antes de morrer. É uma proposta muito interessante porque a gente tende a se acomodar em um nicho de conforto, e fica fazendo sempre o que já sabe. A autora cutuca, provoca, aguça a curiosidade e a gente acaba aceitando os desafios. Por exemplo, eu sempre fugi de uma técnica chamada provisional cast-on - "montagem provisória dos pontos": é um jeito de montar os pontos que permite, no final, que você desfaça a montagem, pegue novamente os pontos e saia tricotando na outra direção. O livro provocou e eu resolvi experimentar um projeto com essa técnica - comecei ontem essa peça:

Mas ainda estou no comecinho: a peça não é minha, e não sou a moça da foto, infelizmente. É uma peça do livro Custom Knits 2, da Wendy Bernard (outra cutucadora que não dá só receita prontinha: ensina e faz a gente querer customizar as peças).

Mas voltando ao livro que estava lendo ontem à noite: estou em um capítulo que fala dos museus que uma tricoteira deve visitar. Tudo logo ali na esquina, como o Shetland Museum. As ilhas Shetland ficam ao leste da Escócia, beeeeem ao norte:

Não disse que era logo ali? Por causa do isolamento, as ilhas preservaram uma raça de carneiros - do mesmo nome - extremamente primitva e pura, cuja lã é muito valorizada. O museu conta a história da raça e da evolução das técnicas têxteis ao longo dos séculos. 

Enquanto não tenho condições de visitar esses lugares (condições essas que, tudo indica, não virão antes do término da presente encarnação), vou curtindo os livros (não é bacana saber do que existe aí pelo mundão afora?) e tirando casquinha dos mimos que recebo de pessoas que viajam e lembram de mim. Ontem ganhei este dedal de porcelana de uma aluna que esteve em Paris:

E minha irmã trouxe do Uruguai esta lã puríssima, artesanal:

Se alguém aí for às ilhas Shetland, eu aceito um velo de carneiro!

Bom, depois de todos esses assuntos, acho que está explicado o título da postagem, né? Mas eu prometo, mesmo, que não vou mais deixar que os assuntos se acumulem assim!

Palavra de tricoteira (e fiandeira).

Até a próxima!

segunda-feira, 19 de março de 2012

Das dificuldades de se manter um blog...

Há duas semanas não escrevo uma postagem, mas vou garantir: não é por falta de assunto. Tenho três ou quatro postagens prontinhas na cabeça, mas o tempo escasso e outras complicações foram aparecendo...

...tipo esta aqui:


Esta é a Tailee, e hoje de manhã cheguei à conclusão de que ela tem ciúmes do computador. Só pode ser isso.

Mas o motivo real que me manteve afastada do blog durante essas duas semanas foi um serviço extra que peguei: a tradução de um texto...não, nada sobre fibras, tricô ou carneirinhos: era jurídico, mesmo. Foi um servicinho pesado e tedioso que durou vários dias e, depois que entreguei, fiquei por algum tempo sem querer sequer ver o teclado do computador. Meus dedos não obedeciam, mesmo.

Mas aí, como estou em fase de querer tirar lições de tudo, o tal trabalho me provocou muitas reflexões. O texto era quase todo especificações para o fornecimento de equipamento industrial pesado. Peixe grande. E isso me fez pensar na complexidade das engrenagens que movem esse mundo em que vivemos: nós desfrutamos dele, e consumimos o que é oferecido a nós, mas nem de longe sonhamos com a quantidade de pessoas que trabalham para que possamos ter acesso a uma certa facilidade; ou a quantidade de dinheiro que gira em torno disso; ou que talvez um alto executivo da empresa que fabrica os tais equipamentos saia de sua casa toda manhã, rale o dia todo, e esteja infeliz, cheio desse trabalho. Mas ele faz parte de uma engrenagem que não pode parar. É um mundão, e é preciso muita gente para fazê-lo girar.

De minha parte, foi interessante lembrar que já tive emprego em indústria e minha vida era escritório o dia inteiro, contratos, manuais, reuniões... Não faz tanto tempo - onze anos. Mas deixei esse universo e hoje meu mundo é esta cidade bem menor, meu ateliê e a tela deste computador. Nostagia? Eu andava com um pouco, sim, pois é preciso abrir mão de muita coisa ao optar por uma vida como a que levo hoje. Esse serviço veio em boa hora para me ajudar a ver as coisas dentro das devidas proporções. Então, nostagia? Eu, não! Afinal, o dia está lindo; minha porta da frente, ao lado do computador, está escancarada; a Tailee está dormindo na poltrona; e minha roca está aqui do lado, esperando o próximo projeto.

Por falar em roca, estou preparando uma postagem só sobre elas. Enquanto não publico, vou pelo menos mostrar o que andei fiando nos últimos dias (he he he, para evitar lesões repetitivas, eu fiava nos intervalos da digitação...).

Lembram da minha alpaca? Ainda tenho um pouco de fibra, mas a curiosidade foi grande e fiei pelo menos o suficiente para um projetinho pequeno (fiei três vezes uns 180 metros e depois fiz o plying - resultou em um fio 3-ply, portanto). Estou fazendo uma cowl - um tipo de gola circular, bem simples, fácil de usar:


Vocês devem lembrar que algumas postagens atrás eu comparei dois tipos de processo de fiação - o worsted e o woolen; pois bem, empreguei este último na fiação da alpaca. O fio ficou muito leve e fofo, e a gola está ficando bem rústica; mas - creio que ainda seja cedo para eu afirmar isso - eu acho que prefiro o método worsted, que deixa a lã mais compactada e os pontos com uma definição melhor. Tipo assim:


Reconhecem? É a misturinha de merino e seda que mostrei algumas semanas atrás - naquele dia em que tive um ataque de bobeira e me inspirei na música do Michel Teló para escrever! Já fiei todinha, depois dividi em duas bobinas e fiz o plying; ou seja, esse é um fio 2-ply, cuja definição normalmente não é tão boa quanto a do 3-ply; mas, por causa do método utilizado, ficou melhor, sim - apesar de não tão fofinho e aerado. 

A sensação de tricotar uma amostrinha como essa e lembrar que eu mesma fabriquei o fio é incrível. O processo envolve várias etapas, e quando termino e vejo o tricô surgir sinto-me dotada com os poderes de Greiscow (é, assisti He-Man quando era criança):


Fico imaginando então como deve ser participar do processo todo MESMO - desde o carneirinho, o processamento da lã... mas eu chego lá, podem apostar.

O fato é que não tem de ter superpoderes, não: qualquer pessoa pode fazer - a sensação de autosuficiência é que nos faz sentir poderosos. E é isso que pretendemos mostrar aqui na cidade, quando o projeto de artesanato da ACAJAL começar a funcionar. Depois eu explico.

Cenas dos próximos capítulos (eu disse que tenho várias postagens prontas na cabeça, então prometo não ficar ausente por duas semanas novamente!):

- rocas;
- feltragem + ACAJAL;
- inglês (o que isso tem a ver?!);
- vídeos de fiação (já estou fazendo testes para poder publicar algo inteligível...)
- o que vou fiar em seguida? Essa coisa linda aqui - merino + seda na cor Pomegranate ("romã"):


Aff... que mais? Sim claro, vem aí o primeiro picknit (pic-nic + tricô no parque) de Pouso Alegre. Em abril.


Até a próxima!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Sintéticos X Naturais

Tem mais novidade no mercado: hoje recebi e-mail anunciando a coleção 2012 da Círculo. Mas... adivinharam? Mais uma vez, tudo sintético. Muitos pompons e fios fofinhos, muito colorido... e nada natural.

A essa altura já deve ter gente se perguntando: Por que tanta implicância com os sintéticos? São práticos, duráveis, fáceis de lavar, baratos (nem tanto) ...

Ok, vou tentar explicar. Há vários motivos:

1. Desculpem, mas o toque dos sintéticos é desagradável. Artificial. Duvido que alguém que tenha tricotado com fios 100% lã de boa qualidade se contente em tricotar com sintéticos.

2. Os sintéticos não têm uma característica importante da lã - a resiliência: um suéter de lã que tenha alargado com o uso só precisa ser lavado e blocado novamente. Blocar é umidecer a peça, arrumá-la em superfície plana no formato e tamanho desejados e deixar secar. Fibras sintéticas não podem ser blocadas.

3. Os sintéticos formam bolinhas na superfície com rapidez incrível (como as blusinhas de viscolycra e os lençóis de poliéster).

4. Um fio 100% natural pode ser produzido por qualquer pessoa, em qualquer lugar, com equipamento mínimo (escovas de pentear cachorros e um fuso tosco de madeira), sem agressões ao meio ambiente: depois de tosquiar o carneiro, todos os demais processos podem ser feitos até dentro de um apartamento: lavar a lã, cardar, pentear, fiar, tingir e tricotar. As fibras animais também aceitam o tingimento vegetal.

5. Os sintéticos não proporcionam conforto térmico; vista uma camisa de poliéster: se estiver calor, você vai sentir mais calor (e sua transpiração não vai evaporar); se estiver frio, você vai sentir mais frio.

Mas é preciso prestar atenção ao que se rotula de natural ou sintético. Vejamos alguns tipos de fibras:


PROTEÍNAS

As fibras protéicas são todas de origem animal: a lã das diversas raças de carneiros, o cabelo dos camelídeos (lhamas, alpacas, camelos), o pelo das cabras (os mais usadas são o cashmere e o mohair) e dos coelhos angorás, a seda da lagarta... Há ainda as fibras de animais raros: alguns exemplos são o búfalo Musk do extremo norte das Américas, que fornece a caríssima fibra chamada de Qiviut; as vicuñas e guañacos, que estão sob proteção de organizações mundiais; e os iaques do Nepal e Tibete. Todas essas fibras se enquadram na categoria que só precisa de um simples processamento doméstico. As fibras protéicas também são consideradas mais éticas porque não exigem que os animais sejam sacrificados; ao contrário, as fibras precisam ser removidas para o bem estar do animal. Um caso curioso é o búfalo Musk citado acima: extremamente selvagem, abordar o animal para remover a fibra está fora de questão; mas, em certas épocas do ano, as fibras caem naturalmente e são substituídas por uma nova pelagem; só é preciso recolhê-las do chão.


O búfalo Musk vive em áreas de proteção no Canadá e Alasca. Não parece a fera do filme da Disney? Eu sempre achei ele fofinho...

O coelho angorá deve ser escovado constantemente e suas fibras removidas: diferentemente dos gatos, ele não é capaz de vomitar as bolas do pelo que ingere, e pode morrer se as fibras não forem removidas regularmente.

Já existem publicações especializadas em fibras raras e selvagens, como a revista Wild Fibers.

CELULOSE

São fibras de origem vegetal: tradicionamente, o algodão e o linho. O algodão fornece os tufos na própria planta, e no caso do linho produz-se o fio a partir de fibras dos caules. Mas o homem pesquisou e, durante o último século, descobriu como produzir fibras de celulose a partir de outras plantas: as mais comumente usadas são a soja, o bambu e, acreditem, a maconha (vejam bem, é uma variedade diferente, não a que usam como entorpecente!). O processamento resulta em fios sedosos e escorregadios - tipo viscose - que drapeiam bem. Muitas vezes eles são misturados a outras fibras para dar caimento: algodão + bambu, por exemplo, é uma combinação comum.

MAS... apesar de essas fibras serem vendidas como "naturais", o processo de fabricação não tem nada de natural: usa-se química pesada para separar partes da planta; mais química para amolecer as fibras e criar uma espécie de pasta moldável; essa pasta passa por uma "peneira" - ela expele os fiozinhos extrudados que mergulham direto em uma solução contendo... muita química!

Alguns nomes bacanas que aparecem na descrição desse processo (vou citar os termos em inglês mesmo porque são nomenclatura química e devem ser semelhantes em português): sodyum hidroxyde, carbon disulfide, sodyum xanthogenate, sulfuric acid (esse a gente sabe a tradução de cara, né?), N-methylmorpholine-N-oxide, methanol and ethanol*. Ui! 

Luvinhas sem dedos tricotadas com fio que mistura cashmere, algodão, lã de carneiro e soja. Ficaram suaves, confortáveis e quentinhas, mas o processamento da fibra de soja - que deixou o fio mais sedoso - ainda é agressivo demais. Há pesquisadores trabalhando para conseguir o mesmo resultado sem prejudicar o meio ambiente.

O algodão é exceção - seu processamento pode ser totalmente natural, como o das fibras protéicas. Ele não protege do frio, mas proporciona conforto térmico no calor. Eu uso de montão - os tecidos para patchwork são 100% algodão! Também acho os fios de algodão ótimos para fazer crochê. Mas, para tricô, não sei bem o motivo, mas não gosto muito. Acho que é porque o tricô é mais usado para vestuário, e uma blusa tricotada em algodão fica mais pesada, deforma e estica com facilidade - e o algodão também não pode ser blocado. Além disso, o algodão seria usado para tricô de verão, que pede um fio mais fino, delicado... e agulhas de numeração menor também. Já tentou tricotar uma blusa inteira com agulhas de 2.5 mm, 3 mm? Eu já tentei. Três verões atrás. Não terminei até hoje.

E aí temos as fibras assumidamente sintéticas - poliéster, poliamida, acrílico. Todos materiais termoplásticos. Nem é preciso falar mais nada, né?

Bem, dei essa volta toda para explicar porque fico suspirando e esperando o lançamento das coleções anuais de fios - e sempre me decepciono!

Quando o outono chegar eu e algumas amigas organizaremos um encontro tipo "Tricô no Parque" aqui em Pouso Alegre. Esse encontro era para ter acontecido no horto municipal em outubro do ano passado - já estava anunciado e havia várias adeptas; mas o horto entrou em reformas. Agora, temporada de calor e chuvas, não dá. Mas logo vamos realizar esse projeto, e lá teremos muitas agulhas e sobras de fios de diversos tipos para quem desejar experimentar. Aposto que vão cair de amores pela lã! Nesses encontros também pretendo levar fusos e quem encarar o desafio vai aprender a fiar, também.

Aguardem - em abril!


Por falar em fiar, o tempo refrescou um pouco e tenho fiado bastante - logo vou poder mostrar minha alpaca, que está ficando lindona.

Mas essa postagem já está enorme e não vou entrar em detalhes agora.

Boa semana para todos!

*Fonte: The Intentional Spinner - a Holistic Approach to Making Yarn, livro que vai fundo no universo das fibras e, no próprio título, já indica que temos uma responsabilidade!

quinta-feira, 1 de março de 2012

Simplicidade que resolve!

Dias atrás eu escrevi aqui sobre resourcefulness. Hoje recebi este vídeo de um amigo, o professor Antonio Martini, de Itapema, SC. Tá tudo lá:

Projeto voluntário + material facilmente coletado + solução para o ser humano + um alívio para o meio ambiente = resourcefulness.


Exemplo bacana para todos nós!

Das Coisinhas Simples...

... e valiosas! Um artigo que eu estava lendo propôs o desafio e eu aceitei: procurar em volta pequenas coisas que podem tornar o dia mais especial. Registrar dez delas:


Damas-da-noite colhidas na floreira do balão aqui da rua, em jarra baratinha comprada na ponta de estoque da fábrica de porcelanas de Monte Sião, pertinho daqui.


Na falta de um vaso pode ser também na garrafa de água mineral cortada... o quilt foi feito com sobrinhas de tecido de outros trabalhos, mas é um favorito.


Meus gerânios andavam caidinhos... um mês atrás pus torta de mamona neles e agora estão assim!


O flamboyant aqui em frente de casa dispensa comentários!


A Kimee foi operada há dez dias mas está se recuperando super bem...


O abacateiro do vizinho está ficando carregado...! E vejam, muitos dos galhos pendem para meu quintal...


Tinha de ter fibra nessa história, né? Estou demorando para fiar minha alpaca por causa do calor, mas fiquei surpresa quando enrolei um bocado no niddy-noddy e deu mais de 200 jardas! Até o inverno chegar vou ter o suficiente para tricotar uma peça caprichada!


Quaresmeira florida... fotografei da porta de minha área de serviço.


Pássaro curtindo a sombra do Flamboyant. Em uma tarde bonita assim ouve-se bem-te-vis, sabiás, ararinhas... é só parar para ouvir!


Roberta Sá e Ney Matogrosso cantando "Lavoura". O CD estava rolando há algum tempo, mas eu não estava prestando atenção. Essa é a faixa cinco, um samba-canção. Lindo!

Posso acrescentar uma décima-primeira coisinha? Não estar presa em um escritório, trabalhar em casa e poder a essa hora dar uma volta e reparar nessas coisas!

Aceitam o desafio?