quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Paroles, paroles...

...adoro palavras! São nossas melhoras amigas – mesmo quando nos dão “olé”: às vezes não achamos as palavras exatas de que precisamos. Outras vezes vem à mente aquela palavrinha perfeita, que resume todas as nossas idéias. Hoje quis escrever sobre duas palavras: a primeira, pasteurização, foi usada pela Cláudia Lamarão em um comentário aqui do blog. A outra, resourcefulness, era muito usada pela Elizabeth Zimmermann*. Enquanto escrevo sobre a primeira vou ver se me vem à mente uma tradução apropriada para a segunda.

Pasteurização é, por exemplo, o que fazem com o leite que bebemos: no passado às pessoas bebiam leite direto da vaca e ponto final. Depois, constatou-se que não era saudável, e hoje o leite passa por um processo que lhe confere durabilidade e higiene... e lhe tira grande parte da graça! Minha cunhada Mariinha, aqui de Minas, tem sítio e ainda sabe o que é leite de verdade: aquele que, quando se ferve, a nata bóia. E ela junta a nata para fazer bolo.

A Cláudia Lamarão comentou minha postagem da semana passada (aquela em que mostrei o novo e “revolucionário” fio que dispensa a habilidade de fazer tricô) e foi muito feliz ao usar a palavra pasteurização para descrever o que anda acontecendo em nosso mundo: “O prazer foi devidamente pasteurizado e embalado para o consumo rápido e fácil (...)”.  E isso vem acontecendo em todos os departamentos.

Vejamos, por exemplo, o patchwork; apesar de haver indícios de que na antigüidade já se juntava pedacinho com pedacinho por necessidade, a origem mais certeira do que conhecemos hoje foi em Durham County, uma região na Inglaterra onde se fazia muitos acolchoados. Juntava-se dois tecidos com algo fofinho no meio, acolchoava-se, e lá estava uma peça utilitária (e bonita, pois o quilt à mão era maravilhoso!). Às vezes, quando o bicho pegava, por necessidade usava-se peças emendadas no lugar de um tecido inteiro. E ia-se levando a vida. Quando houve a migração para o que viria a ser os Estados Unidos, no iniciozinho da colonização, muitas dessas pessoas foram para lá. A vida na colônia era dura e os tecidos não davam sopa. As famílias não tinham permissão para ter um tear em casa: o Império Britânico, gente boa como ele só, impunha que os colonos comprassem deles o que precisavam. E aí, qualquer pedacinho passou a valer ouro. Surgiu o costume regular de juntar esses pedacinhos. A princípio, de forma puramente utilitária. Mas, como mulher ninguém segura , o utilitário foi ficando bonito, também: as colonas passaram a planejar, elaborar, criar, usar princípios geométricos que sequer conheciam... e nasceu o patchwork como conhecemos hoje.**

Whole Cloth ("tecido inteiro") quilt feito à mão na região de Durhan County.

Em tempos difíceis o whole cloth dava lugar ao aproveitamento de pedaços.

Exemplos dos quilts mais antigos, feitos nas colônias: da desorganização completa do "crazy" à introdução das pecinhas geométricas.


De lá para cá, houve inúmeras fases em que as quilteiras – mulheres que fazem acolchoados de patchwork – precisaram tirar leite de pedra: durante a guerra civil, por exemplo, cortaram as roupas; e durante a recessão dos anos 30, utilizaram sacas de arroz, açúcar e farinha (eram de um algodão ralinho na época, mas com estampa!). Ambos os casos originaram estilos próprios que são usados até hoje: qualquer loja de tecidos para patchwork nos EUA tem sempre coleções recém-lançadas de tecidos designados como Civil War (“Guerra Civil”) e Thirties (“Anos Trinta”).

1. Quilt feito em cores e estampas típicas da época da Guerra Civil;
2. Estampas típicas dos anos trinta, época da grande depressão;
3. Anúncio da época: Feedsacks eram as sacas de alimentos em grãos utilizadas na época; o subtexto diz "Moda dos Tempos Difíceis".


Como assim, coleção?

É aí que eu queria chegar. Hoje, tempos mais amenos, o patchwork está badaladíssimo e lá fora os designers lançam coleções temáticas regularmente. Muito bacana: são várias estampas coordenadas, dentro de um esquema de cores lindão, tudo combinadinho; de qualquer jeito que você juntar, vai ficar bonito. E as lojas vão mais longe: além de vender os tecidos, vendem também kits para a confecção de uma peça que alguém já desenhou.  Você escolhe a peça e compra o kit com os tecidos já selecionados, as quantidades já planejadas, as medidas vêem de bandeja... Tudo por um preço que causaria indignação às colonas que inventaram a coisa e sabem que para fazer patchwork não se deveria gastar uma fortuna. A idéia, ao contrário, é a economia. Ah, mas os kits são práticos... Não precisa escolher, criar, calcular, planejar... só falta vir com certificado de garantia. Oops: olha a pasteurização aí, gente...!

Kit à venda na loja "Fat Quarter Shop"; reparem no precinho: 199 dólares, que não incluem o recheio e o tecido do forro!


E isso me leva à segunda palavra:  resourcefulness. Vou tentar “quebrá-la” para explicar.

Resource quer dizer “recurso”. Resourceful é a pessoa que sabe se virar, catar o que tem em volta e transformar no que precisa – enfim, a pessoa que sabe providenciar os próprios recursos. Resourcefulness, intraduzível para o português, é essa qualidade que todos deveríamos ter. Deveríamos, não: nós temos. Só estamos desaprendendo a usar.  A deixar aflorar. As oportunidades são tiradas de nós pela pasteurização.

Resourcefulness é o que praticavam as colonas americanas quando criavam seu patchwork. Resourcefulness é olhar um limão e saber que algo feito com ele não tem de ser, necessariamente, azedo. A limonada que o diga.

Em nosso mundo craft – o pequeno grande mundo das pessoas como nós, que gostam de fazer coisas com as mãos – é muito importante entender bem esses conceitos de pasteurização e resourcefulness. A primeira é uma ameaça ao livre uso da criatividade que todo ser humano possui, sim. A segunda já nasceu conosco, e não podemos deixar que morra por causa do comodismo de nossos tempos. Nem sabemos até quando ele vai durar.

*Elizabeth Zimmermann é uma escritora, tricoteira e designer inglesa. Virou esse universo do avesso , revolucionou de verdade. Merece uma postagem só dela, que você encontra aqui.

**Fonte: The Ultimate Quilting Book, Maggie McCormick Gordon, Collins & Brown, 2000.

5 comentários:

Rosâna Ruiz disse...

Jane, sempre aprendendo !

Marina disse...

Ah! Como gosto de ler seus escritos. Estou neste exato momento praticando o resourcefulness em um casaquinho para os netinhos mas a receitinha que encontrei era para menina e em fios que eu não tenho em casa, aí...

Beijão

Jane Bertolaccini disse...

Que legal, Marina! Depois mostra para a gente e conta a hostória de como surgiu essa peça!

Telma disse...

Interessante como a gente encontra bons textos pela internet. Eu procurava uma forma de aprender a fazer meu próprio projeto de patchwork, pois sou uma dessas pessoas "resourcefulness" e acabei encontrando uma aula de história muito legal.
Adquirir coisas prontas é uma forma de tortura, pois tira o nosso direito de criar e sentir prazer com a coisa criada.
Bem, o papo está ótimo, mas eu quero muito aprender a fazer um projeto de patchwork, você sabe como se faz? Estou em sp. Abraços
Telma

Jane Rotta disse...

Obrigada pelo comentário, Telma! Escrevi este artigo há um bom tempo, e fico feliz que ele ainda alcance e influencie pessoas!

Espero poder te ajudar em sua nova aventura com o patchwork. Eu escrevo outro blog, direcionado às alunas de meu ateliê mas também ao público interessado em geral. Lá você encontrará um marcador entitulado "Lições de Patchwork" (procure na coluna à direita); o endereço é:

http://baudacotinha.blogspot.com.br/

E o ateliê também mantém uma página bem informativa no facebook:

https://www.facebook.com/baudacotinha

(acompanhando a página você saberá quando eu postar lições novas no blog).

As lições numeradas são particularmente úteis para quem está começando. Mantenha contato comigo, envie suas dúvidas e dificuldades. Até onde for possível (devido à distância), eu ajudarei!

Abç e boa sorte!