quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Um pouco sobre tingimento

A informação mais correta que posso oferecer sobre o tingimento é que ele não é uma ciência exata: é muito difícil planejar uma peça de determinada cor e conseguir o resultado desejado. A gente tem de ir experimentando daqui e dali, e aprendendo com os erros. Eu tenho um livrinho bacana: Hand Dying Yarn and Fleece ("Tingindo Fios e Velos Manualmente"), de Gail Callahan; mas livros, neste caso, são apenas pontos de partida: a gente tem de ser meio alquimista.

Vou mostrar abaixo meu experimento com a última meada que fiei; a cor almejada era lilás.


- Antes de começar o tingimento é preciso mergulhar a meada em uma mistura de 2/3 de água e 1/3 de vinagre; deixe por meia hora; esprema o excesso;
- Enquanto isso, prepare a cor: como queria lilás, misturei azul claro com um pouco de vermelho. Misture os pós e acrescente água fervente; a quantidade? Comece com pouco; se colocar demais não dá para retirar. Eu costumava achar que era para misturar o tubinho inteiro, mas não é isso, não!
- Se for tingir por imersão, essa mistura será diluída na panela com mais água e mais vinagre; então é necessário uma mistura mais concentrada; mas para tingir no vapor, como eu estava fazendo, a mistura será despejada diretamente na lã, como mostro na segunda foto: forrei um jornal, abri um pedação de filme plástico, e arrumei a meada ali; fui despejando a tinta misturada na lã e massageando a meada (de leve) até empapar bem;
- Embrulhe com o filme plástico e coloque em uma panela de cozimento no vapor; leve ao fogo por meia hora, apague, deixe esfriar bem e enxagüe; use amaciante no último enxagüe.

MAS...

- Nesse ponto, enquanto embrulhava, eu percebi que a cor não estava legal: estava um rosa pálido demais - nada de lilás. Obviamente, faltava azul. Misturei a tinta novamente, mas aí constatei que não tinha mais filme plástico. Lição do dia: Não faça de improviso - programe-se! Resolvi então tingir por imersão; preparei a mistura mais concentrada e diluí na panela com água fria. Não se deve mergulhar a lã na panela com água já quente: choques de temperatura fazem a lã feltrar. Pelo mesmo motivo, antes de enxaguar a lã depois do tingimento é preciso deixar esfriar totalmente.
- Observe na quarta foto que a mistura na panela parece bem roxa; eu tinha, então, esperança de que o resultado fosse lilás. Não foi. Após manter em fervura baixa por meia hora e escorrer, ficou um rosa escuro queimado. Novamente, faltou azul.

Algumas considerações importantes para quem quiser experimentar:

1. O pó não deve ser inalado, e a tinta não deve entrar em contato com a pele; proteja-se. Não trabalhe com tingimento em superfíceis onde prepara alimentos (eu uso uma pia que fica no quintal, e mesmo assim forro tudo). Panelas e utensílios devem ser usados apenas para tingir.

2. Após manter a panela no fogo o tempo necessário, a água deverá estar clarinha: a fibra deve absorver todo o corante. Se isso não acontecer, é porque foi usada tinta demais. Nesse caso, não despeje o resíduo na pia ou ralo - coloque em um vidro bem vedado e entregue em local apropriado, que recolha resíduos tóxicos. Por isso eu disse que é melhor colocar tinta de menos do que demais. Você sempre pode tingir de novo.

E aqui está o resultado - transformei a meada em bolas ontem à noite e tricotei uma amostra:


Mais uma vez, minha lã fiada manualmente ficou grossa demais. Não há nada de errado nisso, mas eu tinha planejado uma lã mais delicada. No entanto, é errando que se aprende, e dessa vez eu sei o que fiz de errado. Relendo uns trechos do livro The Intentional Spinner (algo como "A Fiandeira Deliberada"), da Judith MacQuenzie McCuin, eu entendi o que está havendo.

A lã é uma fibra animal, e tem uma característica - em maior ou menor grau - chamada crimp: a fibra pode ser mais ou menos crespinha. Isso é bom - resulta em uma lã fofinha, aconchegante. No preparo para fiar, no entanto, a lã é penteada ou cardada: isso reduz o crimp. Aí a gente fia, e acha que a lã está saindo na espessura desejada. Na hora do tingimento, a água quente reativa o crimp: é mais ou menos o que acontece quando a gente faz escova ou chapinha no salão, fica com o cabelo lisérrimo, e depois pega um chuvisco... o lisinho vai para o espaço! Assim, a lã tingida tende a dimuir de comprimento (ih, choveu, cabelo encolheu...) e ficar com mais crimp - bem fofa, mais aerada e com mais espessura. Também por isso é preciso finalizar a lã fiada lavando com água morna - mesmo que você não vá tingir: do contrário, corre-se o risco de tricotar uma peça que encolherá demais na primeira lavagem. Repare que na última foto acima, que mostra a lã secando pendurada em um cabide, eu pus um borrifador ajudando a abrir a meada e evitando que a lã encolha demais. Enfim, eu já tinha percebido que tinha de fiar mais fininho (mostrei na postagem anterior a lã escura que estou fiando) - só não sabia o motivo. Agora sei. 

Nós, seres humanos, utilizamos o que a natureza nos dá, mas nos acostumamos e ter tudo meio caído do céu, comprado - toma-lá, dá-cá. E, geralmente, sem pensar nas conseqüências. É muito curioso tentar produzir com as mãos o que a gente sempre comprou. Aprende-se muito, entende-se os processos... É uma sensação gostosa de auto-suficiência. Tipo: não tem fio natural na loja? Não faz mal, eu mesma faço!

Mas eu quero falar mais dessa questão de natureza, conseqüências e consumo - só que não agora.

Até breve!

Um comentário:

Siusi Ferreira disse...

nossa , te dou maior valor