segunda-feira, 5 de março de 2012

Sintéticos X Naturais

Tem mais novidade no mercado: hoje recebi e-mail anunciando a coleção 2012 da Círculo. Mas... adivinharam? Mais uma vez, tudo sintético. Muitos pompons e fios fofinhos, muito colorido... e nada natural.

A essa altura já deve ter gente se perguntando: Por que tanta implicância com os sintéticos? São práticos, duráveis, fáceis de lavar, baratos (nem tanto) ...

Ok, vou tentar explicar. Há vários motivos:

1. Desculpem, mas o toque dos sintéticos é desagradável. Artificial. Duvido que alguém que tenha tricotado com fios 100% lã de boa qualidade se contente em tricotar com sintéticos.

2. Os sintéticos não têm uma característica importante da lã - a resiliência: um suéter de lã que tenha alargado com o uso só precisa ser lavado e blocado novamente. Blocar é umidecer a peça, arrumá-la em superfície plana no formato e tamanho desejados e deixar secar. Fibras sintéticas não podem ser blocadas.

3. Os sintéticos formam bolinhas na superfície com rapidez incrível (como as blusinhas de viscolycra e os lençóis de poliéster).

4. Um fio 100% natural pode ser produzido por qualquer pessoa, em qualquer lugar, com equipamento mínimo (escovas de pentear cachorros e um fuso tosco de madeira), sem agressões ao meio ambiente: depois de tosquiar o carneiro, todos os demais processos podem ser feitos até dentro de um apartamento: lavar a lã, cardar, pentear, fiar, tingir e tricotar. As fibras animais também aceitam o tingimento vegetal.

5. Os sintéticos não proporcionam conforto térmico; vista uma camisa de poliéster: se estiver calor, você vai sentir mais calor (e sua transpiração não vai evaporar); se estiver frio, você vai sentir mais frio.

Mas é preciso prestar atenção ao que se rotula de natural ou sintético. Vejamos alguns tipos de fibras:


PROTEÍNAS

As fibras protéicas são todas de origem animal: a lã das diversas raças de carneiros, o cabelo dos camelídeos (lhamas, alpacas, camelos), o pelo das cabras (os mais usadas são o cashmere e o mohair) e dos coelhos angorás, a seda da lagarta... Há ainda as fibras de animais raros: alguns exemplos são o búfalo Musk do extremo norte das Américas, que fornece a caríssima fibra chamada de Qiviut; as vicuñas e guañacos, que estão sob proteção de organizações mundiais; e os iaques do Nepal e Tibete. Todas essas fibras se enquadram na categoria que só precisa de um simples processamento doméstico. As fibras protéicas também são consideradas mais éticas porque não exigem que os animais sejam sacrificados; ao contrário, as fibras precisam ser removidas para o bem estar do animal. Um caso curioso é o búfalo Musk citado acima: extremamente selvagem, abordar o animal para remover a fibra está fora de questão; mas, em certas épocas do ano, as fibras caem naturalmente e são substituídas por uma nova pelagem; só é preciso recolhê-las do chão.


O búfalo Musk vive em áreas de proteção no Canadá e Alasca. Não parece a fera do filme da Disney? Eu sempre achei ele fofinho...

O coelho angorá deve ser escovado constantemente e suas fibras removidas: diferentemente dos gatos, ele não é capaz de vomitar as bolas do pelo que ingere, e pode morrer se as fibras não forem removidas regularmente.

Já existem publicações especializadas em fibras raras e selvagens, como a revista Wild Fibers.

CELULOSE

São fibras de origem vegetal: tradicionamente, o algodão e o linho. O algodão fornece os tufos na própria planta, e no caso do linho produz-se o fio a partir de fibras dos caules. Mas o homem pesquisou e, durante o último século, descobriu como produzir fibras de celulose a partir de outras plantas: as mais comumente usadas são a soja, o bambu e, acreditem, a maconha (vejam bem, é uma variedade diferente, não a que usam como entorpecente!). O processamento resulta em fios sedosos e escorregadios - tipo viscose - que drapeiam bem. Muitas vezes eles são misturados a outras fibras para dar caimento: algodão + bambu, por exemplo, é uma combinação comum.

MAS... apesar de essas fibras serem vendidas como "naturais", o processo de fabricação não tem nada de natural: usa-se química pesada para separar partes da planta; mais química para amolecer as fibras e criar uma espécie de pasta moldável; essa pasta passa por uma "peneira" - ela expele os fiozinhos extrudados que mergulham direto em uma solução contendo... muita química!

Alguns nomes bacanas que aparecem na descrição desse processo (vou citar os termos em inglês mesmo porque são nomenclatura química e devem ser semelhantes em português): sodyum hidroxyde, carbon disulfide, sodyum xanthogenate, sulfuric acid (esse a gente sabe a tradução de cara, né?), N-methylmorpholine-N-oxide, methanol and ethanol*. Ui! 

Luvinhas sem dedos tricotadas com fio que mistura cashmere, algodão, lã de carneiro e soja. Ficaram suaves, confortáveis e quentinhas, mas o processamento da fibra de soja - que deixou o fio mais sedoso - ainda é agressivo demais. Há pesquisadores trabalhando para conseguir o mesmo resultado sem prejudicar o meio ambiente.

O algodão é exceção - seu processamento pode ser totalmente natural, como o das fibras protéicas. Ele não protege do frio, mas proporciona conforto térmico no calor. Eu uso de montão - os tecidos para patchwork são 100% algodão! Também acho os fios de algodão ótimos para fazer crochê. Mas, para tricô, não sei bem o motivo, mas não gosto muito. Acho que é porque o tricô é mais usado para vestuário, e uma blusa tricotada em algodão fica mais pesada, deforma e estica com facilidade - e o algodão também não pode ser blocado. Além disso, o algodão seria usado para tricô de verão, que pede um fio mais fino, delicado... e agulhas de numeração menor também. Já tentou tricotar uma blusa inteira com agulhas de 2.5 mm, 3 mm? Eu já tentei. Três verões atrás. Não terminei até hoje.

E aí temos as fibras assumidamente sintéticas - poliéster, poliamida, acrílico. Todos materiais termoplásticos. Nem é preciso falar mais nada, né?

Bem, dei essa volta toda para explicar porque fico suspirando e esperando o lançamento das coleções anuais de fios - e sempre me decepciono!

Quando o outono chegar eu e algumas amigas organizaremos um encontro tipo "Tricô no Parque" aqui em Pouso Alegre. Esse encontro era para ter acontecido no horto municipal em outubro do ano passado - já estava anunciado e havia várias adeptas; mas o horto entrou em reformas. Agora, temporada de calor e chuvas, não dá. Mas logo vamos realizar esse projeto, e lá teremos muitas agulhas e sobras de fios de diversos tipos para quem desejar experimentar. Aposto que vão cair de amores pela lã! Nesses encontros também pretendo levar fusos e quem encarar o desafio vai aprender a fiar, também.

Aguardem - em abril!


Por falar em fiar, o tempo refrescou um pouco e tenho fiado bastante - logo vou poder mostrar minha alpaca, que está ficando lindona.

Mas essa postagem já está enorme e não vou entrar em detalhes agora.

Boa semana para todos!

*Fonte: The Intentional Spinner - a Holistic Approach to Making Yarn, livro que vai fundo no universo das fibras e, no próprio título, já indica que temos uma responsabilidade!

2 comentários:

Anônimo disse...

Jane, Seu texto duma delicia, obrigada pelos ensinamentos
Regina Nazaré - reginazare@gmail.com

Jane Bertolaccini disse...

Imagina, Regina, é um prazer compartilhar!