quinta-feira, 4 de outubro de 2012

O Milagre da Transformação

Fala a verdade: dá para acreditar que isto...


...era isto?


Continuo aqui com minhas experiências em processamento de fibras, e é muito interessante ir aprendendo e vendo as modificações que a fibra sofre - em minhas mãos, diante de meus olhos! Por que será que gosto tanto desse processo? Talvez porque nunca freqüentei o jardim de infância, nunca fiz aqueles projetos que causam uma tremenda sujeira e deixam as professoras loucas com uma dúzia de crianças de mãozinhas sujas? Deve ser.

Essa lã que estou mostrando ainda é aquela do Seu Arlindo. Aquela. Já peguei e larguei dela várias vezes, e recentemente peguei de novo por conta de ter, finalmente, comprado um par de cardas para me ajudar no processamento.



Até agora só descobri um fabricante no Brasil, elas custam absurdamente caro e são objetos simples e rústicos. O preço alto é por conta da parte com os dentes de aço - quase ninguém fabrica isso. Não vou contar quanto paguei aqui - dá até vergonha. Mas digo: custou apenas 100 reais menos do que minha roca, que é um objeto de madeira nobre, bem torneado, cheio de detalhes.

Mas enfim, tomei coragem e comprei meu parzinho no site da Selaria Dias; chegou rápido e na mão elas são até mais rústicas e feínhas do que nas fotos. Lixei e dei um trato nelas com cera de carnaúba - nada como uma maquiagem, né?

O grande problema, no entanto, foi este:


À direita está o meu merino branquíssimo, que já compro penteado, lá do Rio Grande do Sul; à esquerda está a mesma fibra depois de cardada. Ficou encardida, né? Pois é: os dentes das cardas vieram oxidados - uma coisa sutil, quase imperceptível. Meu merino foi quem denunciou!


Fiquei indignada a princípio e quis devolver o produto. A loja não criou qualquer dificuldade e declarou-se pronta a cancelar a comprar e restituir meu dinheiro. Mas aí conversei daqui, dali, perguntei, pesquisei... afinal, ainda não descobri onde comprar outro par. Acabei ficando com elas; limpei os traços de ferrugem com vinagre e uma pasta de bicarbonato de sódio e água. Saiu tudo. Mesmo assim, não deixo de lamentar que no Brasil a gente ainda tenha tão poucas opções, e que como consumidores ainda sejamos tratados com esse descuido: pelo que entendi, quase não há demanda para esse produto, ainda, e depois de fabricado ele fica "dormindo" mais tempo que a Bela Adormecida na prateleira. Por isso a oxidação. Mas e eu com isso? Paguei caro e acho que merecia ter recebido um produto pronto para o uso.

Problema resolvido, agora as cardas estão quebrando um galhão. Em minhas tentativas anteriores de fiar a lã do Seu Arlindo, eu tinha de fazer muita força para desfiar as fibras na quantidade certa. Agora depois de cardá-la, fica muuuuuuito mais fácil e até gostoso. Compare:


1. Esse é um punhado da lã antes de lavar...
2....e já lavado, pendurado para secar.
3. A lã lavada ainda tem vestígios de matéria vegetal.
4. A carda abre as fibras e remove quaisquer vestígios.
5. Rolinho pronto para fiar.

E agora é só diversão:


Esses dias vou visitar o Seu Arlindo e levar um rolinho da lã já fiada para ele ver. Quando fui buscar o velo, em janeiro, ele me olhou um tanto surpreso, provavelmente achando exquisito eu querer levar para casa aquela "coisa" - a lã que estava jogada em um galão e ele ia incinerar. Nem eu mesma tinha tanta fé naquela fibra. Mas tinha de experimentar - fazer o quê? Ossos do ofício. Em tempo: milagre algum tornaria essa fibra suave como o merino; cada lã tem seu propósito. Ela será usada para projetos utilitários - nunca um cachecol!

E nos dias 26 de outubro a 7 de novembro eu e o pessoal da ACAJAL vamos estar com exposição montada aqui em Pouso Alegre, na Galeria Artigas (ao lado do Teatro Municipal). A mostra é tradicionalmente de patchwork, mas vamos apresentar também o projeto da lã de carneiro. Quem nos visitar vai poder "ver com as mãos" e experimentar fiar no fuso e na roca - além de conhecer lindas peças feltradas. Não percam!


4 comentários:

ClaraBeauty disse...

Oi Jane
por curiosidade, quanto custa um par de cardas manuais aí?
Bjos :)

Jane Rotta disse...

Oi, Clara! Como eu disse dá até vergonha de falar, mas meu par de cardas custou 271 reais. COmprando direto da Cardo Brasil seria um pouco mais barato, mas eles não parcelavam em 9 vezes, como fez o site da Selaria Dias, onde comprei. Pelo que pesquisei nos EUA um par custa de 50 a 80 dólares, não é isso?

Anônimo disse...

Olá Jane, gostei muito do seu blog. Estava passeando pelo site da fazenda Caixa D'agua quando descobri vc(rrsss). Moro em Tres Corações e gosto de trabalhos manuais. Agora estou fazendo mais trico. Tenho usado lã de verdade, que como vc já bem disse, apesar do preço, compensa a qualidade.Ninguem merece fios sintéticos soltando fiapos. Achei chiquérrima a sua roca.
Abraços, Valéria.

Jane Rotta disse...

Obrigada, Valéria! Que legal saber de mais pessoas experimentando e gostando da lã! Se formos muitas os fabricantes vão pensar mais em nós e lançarão produtos melhores! Três corações é bem perto daqui, se vier a Pouso Alegre venha visitar! Abç!